terça-feira, 7 de julho de 2020

CARREIRAS NA MIRA

Desde sempre foi evidente que a nova lei de gestão hospitalar – publicada pelo actual ministro da Saúde quando o era em 2002 - dificilmente seria articulável com a existência de carreiras médicas, e do mesmo modo o sistema (?!) de saúde que se vai desde então delineando aos poucos dá sinais de não contar com elas e de as considerar mesmo um empecilho. Oiça-se o que se ouvir, na prática é o que se vê.
E na prática a destruição das carreiras já começou, ao ser possível, e vir a ser praticada, a nomeação como directores de serviço de médicos que não atingiram ainda o topo da carreira, quando estes estão disponíveis. Nos hospitais empresarializados (SA ou EPE), legalmente, e nos outros, apesar da lei aplicável o contradizer, qualquer um, mais graduado ou menos graduado, pode ser nomeado para o efeito. A escolha é do director clínico, ou antes, do director do hospital, o qual por sua vez foi quem escolheu o director clínico e o pode demitir a qualquer momento, se ele deixar de cumprir os critérios que levaram à sua nomeação. Que critérios? Os critérios não estão estabelecidos em parte alguma, são pessoais, de confiança pessoal e política, os mesmos que levaram à nomeação do próprio director do hospital pelo ministro da Saúde, e que traçarão o “perfil” exigido aos directores de serviço nomeados em cada hospital.
Ora o papel do director de serviço é eminentemente técnico, responsável máximo no Serviço pela actividade clínica e pelo treino dos mais novos, elemento que deve ser de referência para os outros, com a experiência e o prestígio pessoal e profissional que o tornem naturalmente respeitado e aceite no grupo de trabalho que um Serviço clínico deve ser. É, pois, obviamente desejável que ele seja escolhido entre os que, por provas dadas, da carreira médica e, eventualmente, da carreira académica, atingiram a maior diferenciação profissional no grupo.
Mas na nova ordem implantada nos nossos hospitais, não é isso que se passa, pelo menos não obrigatoriamente. É deixado ao poder discricionário de um, com os seus critérios pessoais. O grau de carreira e as provas dadas não contam para nada, a opinião desse é que prevalece. E isso dá que pensar. Porquê assim? Procurando resposta para esta questão lembrei-me, muito a propósito, como verão, dum facto respeitante à guerra do Vietname.
Nos campos de prisioneiros de guerra é norma internacional que haja um deles que lidera os outros, os organiza e os representa face aos captores, e esse é o oficial de patente mais elevada presente entre os detidos. Essa liderança é indiscutida, o grupo permanece coeso, organizado, e essa organização ajuda-os a mais facilmente sobreviver, enquanto grupo e individualmente, como seres vivos mas também como militares e como homens. Contrariando a norma, nos campos de prisioneiros americanos na guerra do Vietname isso não se passava assim. Os vietcongs escolhiam eles aquele a quem punham o nome de líder do grupo de prisioneiros, por critérios que eram do director do campo. Era um oficial subalterno, um sargento, um cabo ou até um simples soldado, um elemento que ele entendesse ter o perfil adequado para servir os seus desígnios. Ao mesmo tempo que diminuía perante todos o oficial mais graduado, o chefe natural, escolhia o mais novo em idade, ou mais medroso, mais inseguro ou então o mais ambicioso e com menos escrúpulos, que ao sentir-se de posse dum poder que não esperava e que não merecia tudo faria para o manter. Nenhum dos outros lhe reconhecia intrinsecamente autoridade, e por isso a única que ele podia exercer é a que lhe provinha de quem o nomeara, o que o transformava desde logo numa simples correia de transmissão do director do campo. À medida que o tempo passava e a sua actuação se revelava nesse sentido, mais dependente ele ficava do lugar e com receio de o perder. Assim os captores conseguiam a desagregação do grupo, o desentendimento no seu interior, o seu enfraquecimento, a completa falta de iniciativas credíveis e com alguma hipótese de sucesso.
E esta foi uma estratégia de sucesso, como estratégia de destruição. Será que se pode ver alguma semelhança, respeitando-se as diferenças? Mas será que alguém está interessado em destruir os Serviços, e a vida hospitalar? Provavelmente não, mas o desejo cego de eliminar as Carreiras Médicas poderá levar a isso. Se isso acontecer, haverá que responsabilizar alguém. E depois não se diga que foram atitudes e medidas impensadas.
Mas talvez a mira não esteja sobre as carreiras médicas. Ao fim e ao cabo outras carreiras têm tido problemas. E não se afirma já que o Procurador Geral da República não precisa de ser um Procurador (magistrado do ministério público)?… Será que alguém neste país pensará em substituir as carreiras profissionais por uma espécie de carreirismo político?...
In Farpas pela nossa Saúde, Setembro de 2006

segunda-feira, 6 de julho de 2020

INCOMPREENSÃO

O ministro da Saúde agora substituído clamava que o país não compreende o alcance das mudanças introduzidas no nosso sistema de saúde. O próprio presidente da República também parece não as compreender e, naturalmente, expressa preocupação. É claro que se pode dar uma interpretação governamentalmente conveniente a toda essa incompreensão, a de que são precisas mais explicações sobre o que se pretende com as medidas tomadas. Mas ela também pode interpretar-se, em bom português, de outra maneira: como um generalizado desacordo com o que tem vindo a ser feito.
E, no entanto, há quem diga compreender, e que considere até estúpidos todos os outros, os que não percebem. O problema é que os “estúpidos” são, para além dos doentes e seus familiares e amigos, os profissionais que com eles lidam no dia a dia dos hospitais e dos centros de saúde, que os tratam ou procuram tratar e que tentam ultrapassar os entraves que na sua função lhes são colocados progressiva e sistematicamente.
É realmente preocupante que seja quem está no terreno, os produtivos, os profissionais que são o núcleo do sistema e cuja actuação justifica tudo o resto que à sua volta gravita, quem começa por não compreender. E mais preocupante ainda é que quando o Dr. António Arnaut, há umas dezenas de anos, introduziu as mudanças profundas que constituíram o Serviço Nacional de Saúde, todos perceberam. Desde os doentes aos profissionais de saúde, todos as entenderam, não houve “estúpidos”, muito menos geraram manifestações populares e vigílias de repúdio, ou explicações ministeriais sistemáticas sobre a morte de doentes alegadamente por falta de assistência. E o bom resultado dessas medidas viu-se durante 30 anos, tendo dado origem à porventura maior realização social após o 25 de Abril.
A verdade é que há muita gente a falar do que não sabe. Se cada um falasse do que sabe – o que implicaria para alguns não falar da saúde só por ouvir dizer - chegar-se-ia com certeza mais facilmente a bons resultados. Urgências, emergências, casos agudos, falsas urgências, urgências básicas ou polivalentes, etc., são tudo matérias e situações clínicas,  que aos médicos dizem respeito e a ser discutidas e resolvidas entre médicos. Não se compreende que esquemas e planos elaborados por esses técnicos nessas áreas, alvos dum consenso razoável, possam depois ser adulterados por razões declaradamente políticas, ou melhor, partidárias.
Não se compreende que uma nova lei de gestão hospitalar tenha pura e simplesmente inviabilizado as carreiras médicas, eliminando a estrutura que foi um dos pilares do SNS e contribuiu decisivamente para a boa formação pós-graduada contínua dos nossos médicos, com as repercussões negativas que se antevêem a curto prazo. E que fazem com que os profissionais procurem reconstruí-las, agora que o ministério as destruiu.
A nova lei produziu hospitais desestruturados, com muitos serviços tecnicamente desierarquizados, com chefias escolhidas “ad hoc”, de acordo com parâmetros também eles incompreensíveis. E evidenciando uma preocupação com a produtividade médica centrada no controlo biométrico de assiduidade, revelando um pungente desconhecimento da natureza da actividade médica e das suas particularidades e idiossincrasias, como actividade nuclear do hospital, com ignorância de que o melhor caminho para atingir aquele fim seria confiá-lo à gestão clínica de cada serviço. Mas compreende-se que para isso a nomeação dos directores clínicos e de serviço teria de ser feita doutra maneira e a gestão dos hospitais intrinsecamente diferente. A liberalização que se dizia pretender redundou afinal em mais burocratização e na funcionarização dos médicos.
Também não se compreende que vantagens trouxe retalhar o tecido hospitalar nacional em dezenas de empresas, geridas por pessoas que esmagadoramente apenas querem que o “seu” hospital tenha menos prejuízo que os outros, administrando-o para isso como uma mercearia de bairro, sem terem minimamente em conta a função de cada instituição hospitalar no quadro sanitário do país e na zona onde está inserida.
Vá lá que é claramente perceptível o objectivo fulcral da política de saúde do nosso actual governo: poupar dinheiro na saúde. Ou melhor, gastar menos dinheiro, porque poupar seria manter a mesma qualidade gastando menos dinheiro, e infelizmente a nossa descida no ranking internacional das qualidades de saúde nacionais é acelerada. Quem dirige a saúde dessa maneira percebeu que há dois grandes óbices: por um lado os doentes que querem ser tratados, por outro os médicos que os querem tratar. Por isso houve que dificultar o acesso dos doentes aos locais onde os cuidados médicos são prestados, colocando-os mais longe e com horários limitados, e ao mesmo tempo criar toda a espécie de incómodos e dificuldades aos médicos hospitalares, levando-os mesmo a sair para a medicina privada.
Mas nessa preocupação economicista já não se percebe o porquê de atulhar os hospitais com administradores hospitalares, ainda por cima isentos de horário, como se fossem eles a eventualmente demorarem mais tempo a operar um doente ou a sentirem a necessidade de ir ver algum fora de horas. Num delírio administrativo que levou também a gastos sumptuários com sistemas informáticos dispensáveis, sobretudo quando se quer poupar dinheiro, para além de não serem compatíveis uns com os outros, como se tem visto.
Compreende-se que a saúde dum país deve assentar primariamente nos cuidados de saúde primários, por isso não se compreende que os médicos de família vão sendo colocados fora do circuito dos “seus” doentes. As emergências pré-hospitalares claro que dizem respeito ao INEM, mas procurou-se eufemísticamente acentuar uma diferença entre urgência e caso agudo, para justificar que os doentes não precisam de procurar o seu médico, nem devem fazê-lo, até pode ser perigoso, eles não sabem nem têm condições. Ora alguém que durante a noite, ou num sábado, domingo ou feriado, tem uma dor de barriga e vómitos, ou uma forte dor de cabeça ou de ouvidos, ou dispneia moderada com tosse, ou um pico hipertensivo, ou uma descompensação da sua crónica insuficiência cardíaca, etc., precisa com urgência de um médico, não dum bombeiro, dum enfermeiro, ou dum emergencista, seja por exemplo ortopedista, cirurgião ou anestesista. E não precisaria provavelmente de ser deslocado para uma urgência hospitalar a cinquenta ou sessenta quilómetros de distância, onde chega sem ter sido visto antes pelo “seu” médico, ou outro, gastando dinheiro, perdendo tempo, sofrendo e incomodando-se. Mas talvez alguns entretanto desistam…
Compreende-se, pois, que as urgências hospitalares estejam cada vez mais sobrecarregadas com doentes, e que o atendimento possa por isso ter falhas, mas já não se compreende que nelas se diminuam as equipas e reduzam as especialidades presentes, tornando-as frequentemente locais de trabalho quase impraticáveis e perigosos. Ao mesmo tempo que do chamado plano de reestruturação das urgências tenham resultado apenas encerramentos, quando se encerram também centros de saúde e de atendimento permanente, em vez de se criarem nesses centros as condições necessárias para não ser “perigoso” os doentes lá irem de urgência.  
Como se vê, da reforma da saúde em curso há muita coisa que não se compreende, na asserção semântica de não se estar nada de acordo com ela. Mas uma coisa não se compreende mesmo, é por que razão o governo vai gastar milhões numa auditoria externa, estrangeira, a esta política de saúde, só para que alguém possa eventualmente dizer bem duma coisa de que quase todos os que a sentem na pele dizem mal. É mais um gasto inútil, no meio de tanta poupança, mesmo que não se pague mais para o resultado ser menos negativo.
In Farpas pela nossa Saúde, Maio 2008

domingo, 5 de julho de 2020

OS DOIS ANTÓNIOS DO PS NA SAÚDE

O Dr. António Arnaut, advogado de Coimbra e membro antigo do Partido Socialista, foi o criador do Serviço Nacional de Saúde (SNS), há mais de 25 anos. E ficou na História por bons motivos, "pai" dum serviço que neste último quarto de século funcionou perfeitamente, e que até há uns meros 5 anos a Organização Mundial de Saúde classificava em 12º lugar entre todos os sistemas de saúde do mundo, com o 5 º lugar na Europa e muito à frente do inglês e do norteamericano (37º), sendo apesar disso o que gasta menos entre todos os dos países da Europa dos doze. Um Serviço de Saúde verdadeiramente aberto a todos, ricos e pobres, nas cidades maiores e nas aldeias mais recônditas, tendencialmente gratuito, e permitindo com facilidade e "souplesse" a articulação com as Carreiras Médicas. Estas foram um passo decisivo na organização médica e na nossa formação pós-graduada, responsáveis por um avanço ímpar na nossa História em termos de preparação técnico-científica dos médicos, e sobretudo na sua homogeneização em todo o território, desde os hospitais maiores até aos mais pequenos e distantes dos grandes centros.
O outro António, o Dr. Correia de Campos, socialista mais recente, chegou ao Ministério da Saúde em 2002, saiu e voltou a entrar, e desde sempre tem demonstrado para com a Saúde uma preocupação economicista redutora, que coloca acima de tudo e de todos. Essa preocupação veio fixar muito claramente um preço à saúde, e à vida (habitualmente ditas sem preço), pondo cada vez mais restrições nessa área. Tem o objectivo confesso de poupar dinheiro com a saúde, o que justificou as medidas que tem tomado para alterar o SNS, e que ao que tudo indica vão pôr em perigo as próprias Carreiras Médicas. Apesar dessa preocupação, e das medidas que tem tomado, a despesa não pára de crescer, eventualmente pela sobrecarga administrativa e burocrática que elas próprias acarretaram. Obrigando a uma cada vez maior comparticipação financeira directa dos doentes, já agora uma das mais elevadas na Europa dos doze.
São estes os dois Antónios do PS em questão. Um ficou famoso, o outro vamos a ver. Tudo dependerá dos resultados.
In Farpas pela nossa Saúde, Agosto de 2006

sexta-feira, 3 de julho de 2020

É EXTRAORDINÁRIO!

Coimbra é uma cidade curiosa, para onde vim estudar aos 17 anos, onde fiquei e onde nasceram os meus filhos, que também cá estudaram e ficaram. Curiosa, porque nunca foi uma cidade grande mas foi capital do Reino. Quer dizer, teoricamente ainda é, porque a mudança para Lisboa, acompanhando a conquista do território aos árabes, nunca foi definida em lei. E curiosa porque, não sendo uma cidade grande, e já na altura menor que Lisboa, “sede de muitas e desvairadas gentes”, um rei brilhante e de vistas largas, muito à frente do seu tempo, resolveu colocar nela a Universidade que criou, e uma das poucas que nesse tempo existiam no mundo.
Curiosa porque, desde essa altura, a cidade vive à sombra da sua Universidade, como “cidade universitária”, mas sem um entrosamento entre a instituição universitária e o resto da urbe. Antes com uma separação indelével entre estudantes e futricas, mostrando que a primeira foi implantada na segunda, a qual vive grandemente à custa dela mas pouco lhe dá, sendo certo também que a outra a usa quase só como uma localização e um nome.
E curiosa ainda porque, nestas condições, Coimbra alberga gente que se compraz em apoucar a sua cidade, e reduzi-la simbolicamente ao burgo em volta do edifício da Universidade, bastando à sua satisfação de conimbricenses um facto indiscutível: a cidade albergar a mais antiga Universidade portuguesa… Gente que não quer mais do que isso, porque mais exige esforço, capacidade, ambição, e para quê?!...
É curiosa, esta limitação de ambições, esta pequenez de vistas que se traduz bem, nesses, no diminutivo “coimbrinhas”. Ao contrário dos habitantes das outras cidades que, não lhes tendo um rei, um dia, dado uma prenda, se esforçam agora por a sua cidade ser e ter o mais e o melhor possível.  
No entanto, é extraordinário como há em Coimbra gente que rema contra essa maneira de sentir e actuar e quer mais, e melhor, e se esforça para engrandecer a cidade, a par da Universidade e não escondida atrás dela, ou por ela! Gente com projectos ambiciosos, com visão, fazendo jus a outros que cá viveram e deixaram as suas marcas para o futuro. E que ainda são visíveis. Mas não é menos extraordinário que continue a haver a oposição a esses dos que vêem em Coimbra apenas uma capital de distrito sem nada que a distinga das outras, e sem direito próprio de ser mais do que isso no panorama nacional!
Como cidade universitária, Coimbra tem sido referência no Ensino e na Saúde. Falemos agora da Saúde, e de como é extraordinário que gente dentro dela a queira limitar e reduzir precisamente nessa área! Comparando-a com outras a nível de concelho (!), dizendo que nesse campo está sobredimensionada, que não pode nem merece ser mais do que as outras cidades da Região Centro!
É extraordinário que essa gente não perceba que na organização hospitalar há uma hierarquização com níveis de recursos crescentes, até aos Hospitais Centrais. E que se admite que deva haver um Hospital desses por cada milhão de utentes. Tendo a Região Centro cerca de dois milhões e trezentos mil habitantes, deverá ter pelo menos dois Hospitais Gerais Centrais. Que há 45 anos tem, centralizados em Coimbra. Como os da Região Sul estão centralizados em Lisboa e os da Região Norte no Porto. Três pontos de convergência no país, e não mais dadas as curtas distâncias no nosso território.
E porquê em Coimbra? Porque, não sendo uma cidade grande, continua a ser a maior da Região Centro. Com uma Universidade que é a segunda maior do país, apesar de, e mais uma vez, não ser uma cidade grande… Com uma Faculdade de Medicina grande, e várias outras Escolas ligadas à Saúde, bem como Institutos de Investigação nessa área. Portanto, com muitos profissionais de Saúde, muitos professores, alunos, formandos, doutorandos, internos, investigadores, na área da Saúde. E, logicamente, muitos doentes. O que implicará instituições em que todos esses profissionais trabalhem, e em que os doentes sejam estudados e tratados, com todos os recursos tecnológicos, desde os mais vulgares aos mais especializados, em Hospitais que são fim de linha e referência para os outros. Que outra cidade da Região Centro é assim?!  É extraordinário não perceber isto!
São precisos dois Hospitais Gerais Centrais na Região Centro. E já há. Não se fala em construir nenhum. Tentou-se fundir os dois num, por razões economicistas impostas pela UE, e é extraordinário não perceber que o resultado foi mau, com a Urgência atulhada de pacientes horas à espera, as intermináveis listas de espera para consultas, exames, cirurgias, incluindo de doentes oncológicos, contentores para albergar doentes, o assoberbamento de trabalho do pessoal num Hospital que se quer que seja o restante de dois! E´ extraordinário não se querer saber que as fusões de hospitais no nosso país produziram invariavelmente diminuição da quantidade e da qualidade da assistência médica, e redução do pessoal de saúde que se fixe no hospital e na cidade (o que, para quem se queixa que a população de Coimbra está a diminuir, será sem dúvida bom…).
É extraordinário que falem em sobredimensionamento hospitalar em Coimbra quando, não sendo uma cidade grande, já vai com seis clínicas privadas (os hospitais do SNS estão a mais porque incomodam as clínicas privadas?!)…  número atingido depois da fusão dos dois hospitais públicos que quase destruiu os dois, e aproveitando-se dela… e que, nove anos depois, trouxe a população às ruas protestando pela assistência médica hospitalar na cidade...
Curiosa esta cidade, sem dúvida. Para onde eu e muitos outros viemos trabalhar e viver, e ter e criar os nossos filhos, e queremos que muitos outros venham e fiquem. Mas que alberga dentro de si quem se queixe mas na verdade não queira isso. Quem se esforce para que ela não cresça e ocupe o lugar de destaque no País para o qual continua a ter condições. Fazendo oposição aos que querem. Vamos esperar que estes, os que não são coimbrinhas, persistam, e façam Coimbra crescer e continuar o destino que D. Dinis e outros depois dele apostaram para ela.
In Diário As Beiras, 2 de Junho de 2020

quarta-feira, 24 de junho de 2020

O MEDO

O medo saiu às ruas, e esvaziou-as. Não foi o vírus, foi o medo que foi criado e que fez as pessoas esconderem-se em casa, temerosas, como fazem os animais quando, assustados por algo, se metem na toca e só de lá saem pressionados pela fome. O medo que as fez durante mais de três meses sair apenas em incursões ao supermercado para comprar mantimentos, ou em pequenos passeios desentorpecedores mas não muito longe do local onde se acoitavam.
O medo duma única doença, e que manteve as pessoas em casa, escondidas, ignorando inclusivamente todas as outras moléstias e queixas, exacerbando-se esse medo em pavor só de pensarem em ir a um hospital, lugar onde por certo os temidos vírus se concentravam e as podiam contagiar!  E foi esse medo que fez com que patologias graves e urgentes se mantivessem escondidas em casa com os pacientes, sem diagnóstico nem tratamento, com as consultas externas desertas e as urgências sem utentes. Juntamente com as salas de operações fechadas, para possível utilização dos ventiladores, tudo se juntou para parecer que o mundo só tinha de se preocupar com a covid-19 e que todas as outras doenças tinham sido consumidas por ela!
E foi esse o poder do medo. Um país quase parado, com os locais públicos e os estabelecimentos comerciais deixados às moscas. Com os hospitais de referência para a covid-19 assoberbados com trabalho e os outros meio vazios, como se a saúde afinal reinasse para além do SARS-CoV-2.
Os meses passaram, a pandemia começou a amainar na Europa, e o medo a desvanecer-se com ela. Por isso o vírus ficou nas ruas mas as pessoas começaram a voltar.
Houve muitas que entenderam bem o que se passava: que foram o confinamento e os cuidados tomados que levaram a atalhar a propagação da infecção.
Dessas, menos perceberam também que a resposta do nosso SNS a esta epidemia se fez apenas pela organização e pela concentração de meios nesta doença, e que dessa concentração resultou falta de assistência a muitos doentes, com doenças graves, muito mais graves que a virose em questão. Por, na verdade, não haver condições assistenciais para ser de outro modo. Porque o Serviço Nacional de Saúde vai dando cada vez menos resposta através dos hospitais públicos e mais pelos serviços alugados aos privados, pondo os doentes em espera, em listas cada vez maiores. Quando se sai do dia a dia e não é possível a espera, a incapacidade pública vem ao de cima.
Mas houve quem respondesse apenas ao medo, não à doença. Como perderam o medo, a doença e as insuficiências sanitárias e de assistência médica, tornadas claras por ela, deixaram de contar.
Assim, alguns deixaram de tomar as medidas de segurança necessárias, e adoptaram comportamentos de risco para transmissão da infecção como se ela tivesse deixado de existir.
Outros, aliviados do medo de não se conseguir tratar os doentes na primeira leva da pandemia, começaram logo a desmantelar o que estava preparado para lhe resistir; e mais, como as camas para covid-19 foram ficando vazias, e sem perceberem que as outras doenças que antes as enchiam não desapareceram, apenas os doentes não vão aos hospitais como não vão aos restaurantes, às lojas, aos cinemas e aos cafés, logo pensaram que afinal nem faziam falta, e eram uma despesa a abater nas suas contas de gestão hospitalar.
Dizer que estas duas atitudes revelam apenas estupidez e falta de visão é capaz de ser demasiado. E daí talvez não.
O medo é um sentimento natural, positivo quando leva a uma reacção em busca da solução para uma agressão, sendo inteligente criar as condições que tornem mais eficaz e eficiente uma futura resposta a uma situação semelhante. Ou que evitem que a situação se repita.  Mas o medo pode ser apenas uma reacção primária, cujo único fito é a sobrevivência imediata, sem capacidade de analisar o presente e sobre ele projectar o futuro, aprendendo com o que causou o medo e o modo como foi ultrapassado. Não há medo, há medos, sentidos por pessoas diferentes.
Esta pandemia mostrou o que o SNS tem de bom, mas também tornou evidentes debilidades que tem, e que urge corrigir. Tornou óbvio que vai ser preciso investir e que, pelo contrário, o desinvestimento é um péssimo caminho. Para além dos doentes deixados necessariamente para trás, houve cidades onde nesta epidemia foi preciso erguer tendas de campanha e colocar contentores à porta dos hospitais, ou encher de macas pavilhões desportivos. Pois em Coimbra isso não foi necessário.
Porque tem dois hospitais gerais centrais, e um deles pôde ser dedicado temporariamente à pandemia. Foi um exemplo do que se pretenderia noutros locais, e do que deve ser considerado como desejável.
Mas será que a lição de Coimbra não foi aprendida por quem gere a saúde no país? Inclusivamente em Coimbra? E as tendas de campanha e os contentores é que se querem como futuro do SNS?... Pois agora é que se vai ver o que queremos como Serviço Nacional de Saúde, e o que nos querem dar. Estejamos atentos ao que se vai passar. A prova da pandemia de covid-19 não nos vai enganar nesta matéria…
In Dário As Beiras, 24 de Junho de 2020

quinta-feira, 18 de junho de 2020

ENSINO PRÉ E PÓS-GRADUADO NUM
HOSPITAL GERAL CENTRAL EM COIMBRA

Ensino pré-Graduado
Passados apenas quatro anos da inauguração do Hospital dos Covões, o Centro Hospitalar de Coimbra criou a Unidade de Ensino Clínico do CHC. Integrada na Universidade de Coimbra, com um Corpo Docente e um Conselho Pedagógico próprios, partilhava com a Faculdade de Medicina de Coimbra a docência do Curso de Medicina, dando as aulas teóricas e práticas das cadeiras dos três anos do ciclo clínico, isto é, da segunda metade do Curso. Assim se manteve durante vários anos, havendo, portanto, muitos médicos, agora ilustres, que lá estudaram e tiraram o seu curso de Medicina. Só quando surgiu a implantação do numerus clausus nesse curso, entrando logo apenas noventa alunos (!) em vez das três centenas habituais, essa acção docente foi descontinuada, por obviamente não necessária.
Mas os valores do numerus clausus foram crescendo. Até a várias centenas de novo… e os alunos voltaram a ir para os Covões, agora por conta da Faculdade de Medicina, para algumas aulas teóricas nalgumas cadeiras, mas sobretudo práticas e estágios hospitalares em cadeiras clínicas do actualmente existente mestrado integrado de Medicina. Mostrando abertura e inteligência da Faculdade de Medicina, e deixando para trás alguns espectros de endogamia arrogante de outrora.
Com os alunos entrados cada ano a atingirem as cinco ou seis centenas – e a aumentarem ainda mais já no próximo ano lectivo -, com turmas práticas em cadeiras clínicas de 30 e 40 alunos (!), é óbvio que não faz qualquer sentido tentar-se desactivar como Hospital o outro Hospital Geral Central em que os estudantes de Medicina de Coimbra até agora estagiavam e podiam aprender em boas condições. Fazer isso não poderá ser por desconhecimento da realidade, nem só por incompetência.
Aliás, a dificuldade nas aulas práticas e estágios clínicos dos alunos de Medicina é reconhecida quando se prevê agora a sua ida também para clínicas privadas. Que está a ser combinada, acompanhando a desactivação do hospital público para onde iam até agora… Como se pudesse ser a mesma coisa! Como se a função duma clínica privada não fosse ganhar dinheiro tratando doentes!
Ensino pós-graduado
Desde 1973 que o Hospital dos Covões foi sede de formação pós-graduada, quer de formação geral quer de formação especializada. Foram milhares de internos que por lá passaram em 45 anos, e se formaram como especialistas.  Especialistas de qualidade espalhados por todos o país e pelo estrangeiro, todos com uma relação de amizade e de gratidão por uma instituição que se pautou sempre pelo humanismo nas relações interpessoais, entre profissionais e de profissionais para doentes. E que ressalta ainda mais quando se compara com outras instituições.
As vagas abertas ao longo dos anos nos vários serviços contribuíram antes de mais para que mais jovens médicos pudessem escolher a especialidade que gostavam, e mais especialistas se formassem em Portugal, dentro das condições mínimas de qualidade que essa formação exige.
E os internos tiveram no Hospital dos Covões a possibilidade de trabalhar em serviços que, nas várias áreas – e não só nas mais badaladas na comunicação social -, muitas vezes apresentaram inovações, novidades, avanços, resultados, apreciados e elogiados, referidos e seguidos quer nacional quer internacionalmente. E que lhe construíram o nome, quer interpares quer entre os doentes que a ele sempre acorreram, e querem acorrer, e para isso se manifestam. E que têm tornado tão difícil encerrá-lo…
E pergunta-se então: quem quer acabar com este Hospital? E porquê??...

terça-feira, 16 de junho de 2020

SOMA E SEGUE.  TÁ BEM, DÊXA…

Na semana passada a população de Coimbra manifestou-se na margem esquerda por melhores condições de assistência médica hospitalar na cidade. Há quantos anos tal não acontecia? E porquê acontece agora? Mais de dois mil manifestantes, juntando populares e pessoal de saúde, reuniram-se no polo de saúde junto ao Hospital dos Covões, num “Cordão Solidário com os Covões”, pedindo sobretudo que o Hospital fosse reactivado e recuperasse as suas funções, para que os seus doentes, agora perdidos nas listas e filas de espera do HUC, a ele pudessem voltar. Notável era a consternação indignada pelo progressivo desaparecimento dum dos dois Hospitais Gerais Centrais de Coimbra e da Região Centro, deixando o vazio que fez agora levantar a opinião pública.
Durante o período agudo da pandemia de covid-19, foi o Hospital dos Covões o escolhido como referência para combater a doença, e pôde sê-lo por manter toda a estrutura e equipamento que tinha como Hospital, pese embora ter vindo a ser fortemente despojado de recursos humanos e reduzido em serviços. Para isso os serviços ainda presentes foram esvaziados dos seus doentes, para receber os de covid, e enfermarias que estavam inexplicavelmente encerradas foram reabertas pelo mesmo motivo. Depois do bom trabalho que nele se fez, esperava-se que a administração do CHUC percebesse a importância da sua existência como Hospital, permitindo que a resposta do SNS em Coimbra e na Região Centro a um aumento brusco de doentes graves pudesse ser a adequada, não sendo possível numa altura dessas estar dependente da criação  de listas de espera, depois lentamente esvaziadas através dos hospitais privados. Mas não! Pelo contrário, aproveitou a diminuição do número de doentes infectados para voltar a encerrar as enfermarias que estava fechadas, e encerrar, ou quase, algumas que estavam abertas antes. No caminho para a sua desactivação como Hospital, tentaram mesmo encerrar-lhe a Urgência… que outros exigiram que fique aberta… mas como urgência básica, quer dizer, uma urgência como a de qualquer clínica privada ou dum hospital concelhio… Urgência hospitalar polivalente é apenas uma, a do HUC.
Depois da manifestação, e do apoio que praticamente todas as forças políticas de Coimbra expressamente lhe deram, o desmantelamento continuou, absolutamente inalterado. A enfermaria de cirurgia fica com apenas dez camas, a pneumologia fecha, a cardiologia fecha, a Unidade de Cuidados Intensivos Coronários fecha, e, para ter a certeza que estas duas últimas ficam fechadas, as respectivas camas são levadas para o HUC…
Respondendo a esta preocupação generalizada com a repercussão catastrófica da desactivação do Hospital dos Covões como Hospital, sendo transformado numa espécie de armazém ou anexo do outro, o PSD Coimbra organizou um debate público de urgência, exactamente sobre “o futuro dos Covões”. Futuro que, diga-se, é indestrinçável do futuro do CHUC e do futuro da Saúde em Coimbra e na Região Centro. Nesse debate tornou-se evidente que a fusão dos dois Hospitais, ou melhor, do CHC e do HUC, não foi benéfica. Do modo como está feita, nem se conseguiu simplesmente que 1+1 fosse igual a 2; antes se obteve, numa álgebra distorcida e maléfica, que 1+1=2-1=1. E agora, ao fim de nove anos, a população sai à rua para reclamar por melhores cuidados de saúde nos hospitais. Os doentes de Coimbra vão cada vez mais pedir segundas opiniões a Lisboa ou ao Porto, vão cada vez mais ser tratados nessas cidades, e há especialistas vindos de fora de Coimbra dar consultas em hospitais privados em Coimbra. Se alguém precisar de ir a uma Urgência polivalente, em vez de ir à única de cá e esperar oito horas para ser atendido, pode ir ao Porto, a uma das duas Urgências dessa cidade, ser visto e tratado e regressar, e poupa muito tempo… Num passado muito recente, de há nove anos para trás, quando havia CHC e HUC, Coimbra era uma referência na saúde, que os doentes procuravam e que os jovens médicos escolhiam em primeiro lugar para vir formar-se, e onde queriam ficar a trabalhar. Agora não escolhem, não querem vir e não ficam, indo tantos e tantos profissionais de saúde trabalhar e viver para outras cidades, enriquecendo a sua saúde e enriquecendo-as.
Para tentar reverter o desmantelamento do Hospital, surgiu uma Petição pública, já enviada, com 4500 assinaturas, e aceite para discussão na Assembleia da República, para que lhe seja devolvida a autonomia de gestão de modo a reorganizar-se para poder tratar os seus doentes, que dele necessitam e o querem.
Perante todo este quadro, seria minimamente lógico que o conselho de administração do CHUC parasse para reflectir, e tentasse perceber por que tanta gente, desde utentes, e políticos, até ao pessoal de saúde, se opõe frontalmente à destruição do Hospital dos Covões. Tanta insistência destruidora dá que pensar. E dá que pensar sobretudo a indiferença pelos argumentos, queixas e reclamações apresentados. Num assunto que é de saúde pública, da saúde do país e de todos nós, parece-nos ouvir a reposta do compadre alentejano às razões que o incomodam: “Tá bem, dêxa…”
In Diário As Beiras, Junho 2020
NO RESCALDO DUM DEBATE SOBRE O FUTURO DOS COVÕES

Congratula-se quem teve a ideia e a coragem de promover um debate sobre os Covões. Que é como diz, sobre o CHUC, porque as duas coisas são indestrinçáveis. E coragem porque dum debate aberto de ideias resulta exposto o que cada um pensa e, na realidade quer, e as razões que os movem a todos.
Ficou claro neste debate, promovido pelo PSD de Coimbra, que quanto ao tema há apenas, globalmente, duas posições. Uma, defendida pelo povo que saiu à rua acompanhando muitos profissionais, pela qual o Hospital dos Covões tem de ser isso mesmo, um Hospital, capaz de fazer frente a uma pandemia como de tratar os doentes que a ele acorram no dia a dia, e querem acorrer. E que a sua fusão no CHUC, e o modo como ela foi feita, fez com que deixasse de ser. A outra, defende que continue a ser aquilo em que nos nove anos de fusão o tentaram tornar, que é uma "coisa qualquer" que não um Hospital. A dúvida para esses está apenas em escolher que coisa há-de ser, mas sempre como acrescento do HUC, o único hospital geral central que pretendem que haja em Coimbra.
As duas posições ressaltaram perfeitamente claras. A segunda até no repúdio de falar do passado, de há nove anos apenas, de quando as pessoas de Coimbra não saíam à rua para reclamar por melhores cuidados de saúde, não iam pedir segundas opiniões a Lisboa ou ao Porto, nem recorriam às Urgências nessas cidades (essas sim, referências da Saúde no nosso país...) , nem esperavam por especialistas vindos de fora de Coimbra dar consultas em instituições privadas nesta cidade, nem iam cada vez mais ser tratadas em Lisboa ou no Porto. No repudiar que se fale dum passado tão recente, em que Coimbra era uma referência na saúde. Que os doentes procuravam e em que os jovens médicos queriam vir formar-se e onde queriam ficar a trabalhar. O passado tão recente e de tanto êxito é apontado condescendentemente como "coisa do passado", e dizem que é preciso é procurar "qualquer coisa" diferente do que existe e foi começado de há nove anos para cá, porque já se viu que o que foi feito não serve a saúde publica nesta cidade e na Região Centro, e que o povo já se apercebeu disso.
Os que querem que o Hospital dos Covões volte a ser um Hospital são uns revivalistas. Porque querem reviver numa cidade em que a Saúde não era um problema, e para isso querem que se desfaça o que nesse campo foi mal feito nos últimos anos.
Os outros todos querem, na verdade, manter o que foi feito. Isto é, que Coimbra tenha apenas um único Hospital Geral Central (o IPO não é um é Hospital Geral, é um Hospital Especializado, e, aliás, escapou à fusão apenas porque a sua administração não quis...), e tenha depois "umas coisas" feitas "nos Covões". Ou cirurgia de ambulatório e umas consultas, ou dois ou três serviços "de ponta", ou uns laboratórios, ou um centro de investigação (que já foi criado após a fusão, aliás, e nunca funcionou!), ou um centro de estudo de geriatria, ou de rejuvenescimento de velhos, ou um lar de idosos. Ou um centro de pandemias, que sem ser um Hospital polivalente não sei como seria... Enfim, uma coisa qualquer, Hospital é que não, que é o que as pessoas precisam e querem! Ficou claro que, para estes, isso é que não. Hospital em Coimbra há só um, o de Celas e mais nenhum. Até porque para mais hospitais já temos os privados, isso não se pode esquecer...
Ficaram as posições bem definidas. Quem quer o Hospital a funcionar de novo como Hospital, devolvido aos seus doentes, e quem o quer desmembrado, fragmentado, dividido em bocados. A dúvida para estes reside apenas com que bocados deve ficar. Ou antes, com que bocados podem ficar os que por lá ficarem.
Não entendem os que lhe anseiam pelos bocados que nunca os poderão ter se o resto tiver desaparecido, se não trabalharem num Hospital, com intercâmbio constante com os colegas que lhes tratam os mesmos doentes, mas sim num sítio com uns aparelhos e uns profissionais de saúde. Não querem ver, na sua ânsia pessoal, que um Hospital é muito mais do que isso, e cada um, na sua área, só pode progredir se estiver incluído num conjunto bem organizado, interactivo, com uma dimensão apropriada e funcional, lutando todos pelo mesmo objectivo: tratar cada doente da melhor maneira possível, Nestas condições, todos juntos são muito mais que a soma das partes. Que é o que se passava antes. Desculpem lá falar do passado. De há nove aninhos...
In Campeão das Províncias, Junho 2020


quinta-feira, 11 de junho de 2020

A PESTE E O PRÉMIO

No ano 19 do século XXI o mundo foi visitado por mais uma “peste”, neste caso uma pandemia por um vírus respiratório, um novo coronavírus chamado SARS-CoV-2 (Coronavírus 2 da Insuficiência Respiratória Aguda Grave), que provoca a “doença pelo coronavírus de 2019”, ou covid-19. Esta afecta fundamentalmente o aparelho respiratório, mas atinge também outros órgãos e sistemas, e pode redundar em falência orgânica múltipla e morte. A pandemia teve início numa evoluída e cosmopolita cidade chinesa, Wuhan, de 11 milhões de habitantes, aparentemente pela passagem dum vírus de animais selvagens para a espécie humana, onde se tornou patogénico.
Curiosamente, a pandemia atingiu primeiro um conjunto de países do que podemos chamar primeiro mundo, e da Europa, muito provavelmente por serem aqueles mais visitados por pessoas vindas, desde logo, da China, e, depois, dos vários locais que iam tendo mais casos. Poupando, assim, relativamente, os países com menos intercâmbio de viajantes, a outros pôs rapidamente à prova os respectivos sistemas de saúde, pela elevada taxa e rapidez de contágio e a gravidade que podia revestir nalguns doentes, sobretudo mais idosos e mais fragilizados. O elevado número de casos ao mesmo tempo, com necessidade de cuidados intensivos em bastantes, provocou um quase caos sanitário em países como Itália, Espanha, Bélgica, Holanda, chegando ao ponto de aí criarem uma idade limite para os doentes poderem ser admitidos em unidades de cuidados intensivos, a fim de lhes reduzir o número, adaptando-o às vagas!
A evolução naqueles países serviu de aviso para os outros, sobretudo aqueles que viam também crescer o número de casos. Portugal foi um deles, e foram tomadas várias medidas, como a quarentena dos infectados e suspeitos de infecção, o distanciamento físico, o confinamento, a lavagem das mãos, o uso de máscara em espaços fechados e com muitas pessoas. Os doentes aumentaram rapidamente, e se muitos deles puderam ficar em casa, confinados, outros tiveram de ser internados, em enfermarias ou em unidades de cuidados intensivos. A ventilação artificial é, nestes últimos, muito importante, e equacionou-se desde logo a necessidade de aumentar o número de ventiladores disponíveis, adquirindo mais e disponibilizando para o efeito os das salas de operações e dos recobros cirúrgicos. Para isso, salas de operações tiveram de fechar, e as enfermarias foram sendo ocupadas por infectados com o vírus e passaram a ser um foco de contágio. Nalguns hospitais, cheias as camas, houve que armar tendas à entrada ou colocar macas em pavilhões desportivos, e nalguns países chegou-se mesmo a construir hospitais de campanha.
A resposta do Serviço Nacional de Saúde foi capaz, mercê da sua organização, mas depressa se percebeu tê-lo sido por se terem concentrado os recursos numa única doença: a covid-19. Tudo o mais foi sendo deixado para trás, com salas de operações fechadas, consultas vazias, exames por fazer, hospitais com enfermarias bloqueadas por doentes infectados. Numa doença que afectou até agora apenas cerca de 3 em cada 1000 cidadãos portugueses, um sinal objectivo de eficiência do SNS seria ter combatido a epidemia sem deixar para depois as outras patologias, pelo menos aquelas mais urgentes e que podem levar a um aumento de mortes a curto ou médio prazo, embora sem a contabilidade diária dos mortos que agora se faz… Isto é, seria ter uma folga na resposta pública às doenças de modo que quando houvesse um aumento brusco de doentes eles pudessem ser atempada e adequadamente tratados, sem se ter de recorrer à almofada que vai permitindo dizer que o serviço público de saúde é eficiente: as listas de espera! Escoando-se estas para o privado por conta do público…
Um caso particular foi o de Coimbra, porque, como referência hospitalar da Região Centro, tem há quase 50 anos dois Hospitais Centrais, embora agora unidos numa fusão imposta pela troika em 2011. Essa “fusão”, dando um chamado Centro Hospitalar, tem sido, ao contrário, entendida pelo seu conselho de administração como a criação dum único hospital, junção de dois em um, e o que tem sido tentado é fazer desaparecer um (Covões) para ficar só o outro. Pois felizmente que não o conseguiram, e o Hospital dos Covões, apesar de fortemente esvaziado de recursos humanos e de Serviços, mantém a sua estrutura de hospital e a sua tecnologia de Hospital Central (também por necessidade do HUC de a ela recorrer…), porque foi isso que tornou possível em Coimbra uma solução única nesta pandemia: reservar um Hospital para Hospital de Referência, mantendo o outro Hospital da cidade liberto para outras patologias e tratamentos. Ficaram separadas as águas (e as infecções), e para ter as camas necessárias para os infectados bastou esvaziar as enfermarias dos doentes que lá estavam e reabrir enfermarias que, inexplicavelmente, estavam fechadas. E o pessoal do Hospital, juntamente com outro que o veio momentaneamente repovoar, depois de acumulado no outro, conseguiram brilhantemente debelar o surto da doença.  
Seria previsível que o conselho de administração, face a esta ocorrência, percebesse finalmente a importância de ter recebido dois Hospitais com capacidade para tratar doenças complexas, como esta, podendo um ser reservado para o efeito, deixando o outro livre para o restante trabalho médico. Mas não, pelo contrário! Mal se nota um abrandamento da pandemia, logo quer fechar o que foi aberto, mais o que estava aberto e foi esvaziado para internar os infectados. E mais, propõe-se encerrar liminarmente o Serviço de Urgência, embora depois se contente, para já, em passá-lo a urgência básica, igual à urgência das clínicas privadas da cidade. Será que pensa que a pandemia já acabou?... Será que acha que os outros doentes, os que antes da pandemia enchiam as Urgências dos dois Hospitais, e inundavam a do HUC, ao ponto de gerar tempos de espera por atendimento de 8 e 10 horas, desapareceram todos com a covid-19?! Será que não entende que os doentes agora não vão aos Hospitais pela mesma razão que não vão aos restaurantes e aos cinemas? Por medo do vírus?... Mesmo os realmente, e muito, doentes?...
Em vez de se reconhecer a vantagem de ter dois Hospitais, que foi óbvia nesta situação, insiste-se cegamente na destruição de um!! Como diz o povo, “mais vale cair em graça que ser engraçado!”... Neste caso, “se não caíste em graça, de nada te vale ser engraçado”…
O Senhor Presidente da República falou dos que merecem um prémio pelo que fizeram pela comunidade nesta “peste”. Concordo que merecem, não só pelo resultado mas, e sobretudo, pelo esforço que fizeram. Mas com os que o fizeram, denodadamente, no Hospital dos Covões, o Senhor Presidente escusa de se incomodar: o “prémio” já lhes foi dado pelo conselho de administração da instituição onde trabalham…
In Campeão das Províncias digital, 9 de Junho 2020

HOSPITAL DOS COVÕES:
DA LINHA DA FRENTE PARA O FIM DA LINHA

Coimbra é referência para a saúde da Região Centro, com 2.230.000 pessoas, tem uma Universidade grande, uma Faculdade de Medicina grande, várias escolas de vários tipos e graus ligadas à saúde, vários institutos de investigação nessa área, e, por isso, tem muitos profissionais de saúde, formados e em formação, e muitos doentes. E, naturalmente, vários hospitais. Entre eles dois Hospitais Gerais Centrais, existindo e coexistindo há quase 50 anos, e constituindo a tal referência para a Região Centro em matéria de hospitais centrais, com a tecnologia e os recursos humanos necessários, fim de linha na referenciação de doentes desta Região.
Por lei de 2011 fez-se a fusão dos dois hospitais centrais: do HUC com o CHC (fundado em 1973, Hospital dos Covões, Maternidade Bissaya Barreto e Hospital Pediátrico), dela resultando o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Que, ao contrário do que o nome diz, não é um centro hospitalar, antes tem sido entendido como um hospital único com várias instalações espalhadas pela cidade a quilómetros de distância umas das outras. Nesta conformidade, o conselho de administração tem-se esforçado por concentrar todas as valências de hospital geral central no HUC, a pouco e pouco esvaziando de recursos humanos e de serviços o Hospital dos Covões. Felizmente a tecnologia lá instalada permanece, com Unidade de Cuidados Intensivos, Hemodiálise, Unidade de Cuidados Intensivos Coronários, Unidade de Hemodinâmica, Serviço de Urgência, Bloco Operatório, Geral e de Ambulatório, TAC, Ressonância Magnética Nuclear… porque foi isso que lhe permitiu ser o Hospital de Referência para covid-19 em Coimbra e na Região Centro. Função de que se saiu muito bem, mostrando toda a capacidade que tem como Hospital. E que é, convenhamos, o que o tem tornado difícil de matar, apesar dos continuados esforços nesse sentido…
Da acumulação de tudo no HUC resultou o seu superpovoamento, em doentes e funcionários (nas mesmas instalações de há já 33 anos), a sua falta de resposta atempada, com listas de espera cada vez maiores para consultas, exames e cirurgias (em grande medida escoadas para as clínicas privadas), taxas de infecção hospitalar proibitivas (que já levaram ao encerramento temporário de serviços), tempos de espera de 8 e 10 horas na Urgência, sobrecarga do pessoal. Tudo isto acompanhando a progressiva desactivação do Hospital dos Covões.
Esta situação tem sido exposta repetidamente, perante a passividade de quem não a devia ter. Esta indiferença levou mesmo, mais recentemente, a uma Petição pública, contestando essa gestão do CHUC (que nunca foi explicitada em qualquer plano director, aliás) e pedindo a autonomia de gestão para o Hospital dos Covões, devolvendo-o aos seus doentes de tantos anos, à cidade e à Região. Deixando de ser uma espécie de casa da quinta do outro, que serve para arrumar o que não se quer ou de momento não se pode acomodar noutro lado. Porque, obviamente, há necessidade de dois Hospitais, e não de um com um acrescento.  
Tudo em vão. E agora ultrapassou-se o limite. O conselho de administração do CHUC, depois de três meses do Hospital dos Covões na linha da frente a lutar contra a pandemia de covid-19, como Hospital de Referência, propôs-se encerrar a Urgência desse Hospital. A ARS Centro contrapôs mantê-la aberta como... Urgência Básica! Quer dizer, com os mesmos recursos da urgência duma clínica privada ou dum hospital concelhio!  Quando a Urgência do HUC está absolutamente assoberbada, e as Urgências de Coimbra são o fim de linha de toda a Região Centro. Se isto for por diante, resta desejar felicidades aos doentes que forem ao HUC e a quem lá trabalha!
A única explicação razoável para isto tudo é economicista, e errada. Porque outra seria um “clubismo” hospitalar bacoco, que a existir seria demasiado mau… Fiquemos pelo economicismo. É simplesmente o governo não querer gastar dinheiro na Saúde. E o erro da medida advém do facto de fundir dois Hospitais que fazem falta em um único insuficiente não trazer vantagem económica nenhuma, para além de ser uma quebra grande na prestação de cuidados de saúde às populações. Mas a verdade é que o extremo que esta última decisão constitui deixa antever uma atitude de austeridade, que é negada mas parece vir a caminho. Uma austeridade provocada por problemas económicos resultantes do combate à pandemia, e aplicada antes de mais no hospital que ajudou, e decisivamente, a lutar contra ela! Se não fosse trágico, até tinha graça! Esperando que ela se esteja a ir embora… e não volte… nem ela nem outra…  Porque se isso acontecer, e sem o Hospital que recebeu o embate, lá terão os doentes de se misturar com outros num mesmo hospital superlotado ou, não cabendo, em camas em pavilhões desportivos, ou em tendas de campanha montadas à porta do hospital…  É o que se chama ter vistas largas em saúde…
In Diário As Beiras on-line, 9 de Junho de 2020

domingo, 31 de maio de 2020

UM CIRURGIÃO, AS CRIANÇAS E AS MATERNIDADES

Fui aluno em Obstetrícia do Prof. Albertino Barros, regente da Cadeira, e do Prof. Mário Mendes, do qual tantos anos depois vim a ser companheiro em Rotary. Tínhamos aulas no que agora é o edifício da Administração Regional de Saúde do Centro, e que na altura dava pelo nome de Maternidade Daniel de Matos. Longe do Hospital da Universidade, que nunca teve Obstetrícia como Serviço nele incluído, porque na altura, e como aconteceu com a Maternidade Bissaya Barreto, também longe do Hospital dos Covões, era pretendido que as mulheres dessem à luz afastadas do burburinho, da agitação e, diga-se, das infecções, que mais ou menos atingem todos os hospitais. Porque a gravidez não é uma doença, e o nascimento é algo perfeitamente fisiológico, e devemos dar às crianças a possibilidade de quando chegam a este mundo o fazerem em paz e sossego. É isso que, no fundo, todos ansiamos para os dois momentos mais cruciais da nossa vida: quando ela começa e quando termina.
Lembro-me, aluno e jovem interno, do momento em que os bebés, depois de limpos e embrulhados para não perderem calor, eram trazidos até à mãe. Que os olhava como só uma mãe consegue olhar, como uma parte dela própria, que dela saiu e que vai querer manter por perto o mais tempo possível ao longo da vida. E ali ficavam, no quarto ou na enfermaria, junto à cama materna. Lembro-me de o Prof. Albertino dizer que nos Estados Unidos da América consideravam pouco higiénico e até perigoso manter os recém-nascidos perto das mães, e por isso tinham começado a  juntá-los todos em  enfermarias próprias, afastados dos adultos. Ali na maternidade nunca tinha sido possível implementar isso, porque não havia condições para tal. Mas uns anos depois, na Europa, surgiu a constatação que é bom os bebés logo que nascem serem colocados junto às mães, para lhes sentirem o calor, e o cheiro, e ouvirem a voz, que normalmente os irão acompanhar durante muito tempo, e por isso se sentirem acarinhados e seguros,  o que é um bom começo para a sua vida. E assim se voltou a fazer na Europa. E o Prof. Albertino, com a sua fleuma, concluía: “Ora aqui está por que nós, por falta de espaço, andámos durante anos à frente na Europa!”.
Já como interno de cirurgia, e como cirurgião, trabalhei no Hospital Pediátrico, criado por Bissaya Barreto, e quando por lá havia apenas um cirurgião pediátrico. Depois de as maternidades poderem ser centros materno-infantis, ainda dentro do argumento da proximidade entre mães e filhos, a lógica da criação dos hospitais pediátricos foi, por um lado, que a possível patologia dum recém-nascido é muito específica, e diferente da que é encontrada nas restantes idades pediátricas, e, por outro, que as crianças não são adultos em tamanho pequeno, e por isso não deverão ser tratados em hospitais de adultos. Ficaram, assim, em Coimbra, o Centro Hospitalar de Coimbra, com o Hospital dos Covões, a Maternidade Bissaya Barreto e o Hospital Pediátrico, este concentrando toda a pediatria da cidade, e o Hospital da Universidade de Coimbra e a Maternidade Daniel de Matos.
O Hospital Pediátrico acabou por se tornar praticamente autónomo, com todas as especialidades, só lá indo eu, e outros, prestar colaboração muito esporadicamente, sempre que necessário. Na Maternidade Bissaya Barreto mantiveram-se a obstetrícia e a ginecologia, bem com a neonatologia, que abarca, como o nome diz, o apoio aos recém-nascidos, na saúde e na doença.  Como cirurgião fui lá sendo ocasionalmente chamado, por rotina ou de urgência, e do mesmo modo alguns especialistas doutras áreas: medicina interna, cardiologia, nefrologia, urologia. Embora a gravidez não seja uma doença, pode haver grávidas doentes, sempre assim foi; mas agora se calhar um pouco mais, na medida em que as mulheres cada vez engravidam mais tarde na sua vida. Porque os casais jovens têm poucas condições económicas, as mulheres, também por isso, mas por desejo pessoal também, têm uma vida profissional mais activa e nela se aplicam mais intensamente, e a medicina da reprodução vai conseguindo que concebam às vezes quando já não o pensavam conseguir. Sendo, pois, as grávidas, em média, menos jovens, é provável que tenham maior possibilidade de sofrer de alguma coisa. Por isso tem surgido a ideia de aproximar as maternidades dos hospitais gerais.
Mas fazê-las desaparecer, tornando-as em mais um Serviço hospitalar, seria levar as crianças a nascerem no meio do burburinho, da agitação e das infecções. E tal tem acontecido, nalgumas cidades, por meras razões economicistas, sendo alegado, para as encobrir, que a natalidade baixou muito. E que, por isso - tem de concluir-se -, os bebés deixaram de ter direito a um sítio especial para virem ao mundo... Não são em número suficiente que o justifique… Nada de mais errado! Não é essa a atitude a ter, tratando as grávidas como doentes e recebendo-lhes os filhos como resultado dessa doença. E, por outro lado, a falta de “clientes” não pode justificar a falta de qualidade no seu atendimento…  Há é que criar todas as condições para que os “clientes” aumentem!
E isso passa por maternidades bem dimensionadas – que em Portugal corresponde a maternidades que possam vir a ter muitos mais partos do que os que têm agora, já que tanto precisamos que eles aumentem! -, contruídas num local aprazível, tranquilo, saudável, em que as grávidas não sejam recebidas como mais um doente, e as crianças cheguem a este mundo sem sentirem o stress duma instituição hospitalar. E, já agora, perto dum hospital geral que lhes dê o apoio de que precisarem.
E é esta a visão que um cirurgião tem deste assunto, visto de fora e não eventualmente deformado pela lide obstétrica diária. Mas tendo-o acompanhado ao longo dos anos, como profissional, activamente, daqueles cuja necessidade agora é por alguns invocada para na realidade extinguirem as maternidades e incluírem-nas nos hospitais. Por falta de espaço? Por falta de compreensão? Por desprezo por quem dá à luz e por quem nasce? Espero bem que se encontre o espaço adequado e a compreensão não falte.  Quem nos vem substituir neste mundo merece. Assim nós os mereçamos.
In Boletim do Rotary Club de Coimbra, Maio de 2020

sábado, 30 de maio de 2020

OS MÉDICOS, OS DOENTES E A SAÚDE

O Dr. Frank Lewis Jr., ex-Presidente da Associação Americana para a Cirurgia do Trauma, escreveu um artigo notável no Journal of Trauma, dando corpo às preocupações dos médicos americanos sobre a saúde naquele país, e a senda que tem vindo a seguir. O que se passa num País de topo na medicina mundial é com certeza importante para todos, e por isso há que conhecê-lo cuidadosamente, analisá-lo e estabelecer os paralelos possíveis com o nosso próprio País.
Diz o Dr. Lewis que nunca como agora, no início deste século, houve mais razões para que “os médicos se sentissem os mais felizes dos profissionais”. Na verdade, “do ponto de vista científico vivemos na era dourada da medicina. As conquistas médicas dos últimos 50 anos excederam em muito tudo o que se conseguiu anteriormente”. Este extraordinário avanço científico permitiu aos profissionais médicos a realização de actos até aqui difíceis de imaginar, pelo menos durante as suas vidas, e deles tirarem o deleite profissional que quiçá só quem está imbuído da mística da medicina pode entender. Deviam por isso estar felizes, mas não estão. “De facto o oposto é que é verdadeiro, e os médicos estão em geral desmoralizados e infelizes. Sentem que perderam o controlo da sua prática médica para administradores mais interessados em lucros que no bem-estar dos doentes, e o seu tempo profissional é cada vez mais consumido por preenchimento de papelada administrativa e por discussões com pessoal de secretaria, tentando obter autorizações para tratar dos seus doentes”. Nos Estados Unidos da América. E cá não?
O Dr. Frank Lewis continua: “- O aumento dos custos da saúde está também a afectar a prestação dos cuidados de saúde por outros profissionais, particularmente os enfermeiros. Num esforço de poupança, quase todos os hospitais estão a reduzir o número de enfermeiros ao mínimo aceitável, e até abaixo disso. E têm vindo a empregar cada vez mais pessoas menos qualificadas e menos treinadas para sempre que possível substituírem o pessoal de enfermagem, criando-lhes uns títulos eufemísticos que apenas servem para esconder a sua falta de treino e de preparação formal.” Mas ficam baratos. A consequência disto é a “redução da qualidade da assistência de enfermagem prestada aos doentes internados, sobretudo aos mais graves, a par com um aumento da sobrecarga laboral e de stress dos enfermeiros”.  
Os médicos querem sobretudo tratar os doentes da melhor maneira possível, e realizam-se pessoal e profissionalmente com isso. Os administradores, pelo contrário, só se interessam pelos custos, e é esse o objectivo actual da sua presença nos hospitais. Embora fosse curial pensar que não, que servissem acima de tudo para facilitar a tarefa dos médicos e ajudar a criar as condições pessoais, profissionais e tecnológicas para eles exercerem a melhor medicina possível, que é essa que realmente fica, no fim das contas todas feitas, mais barata, senão ao hospital com certeza ao País. Por lá têm tendência para se imiscuir na actividade clínica e depreciar a “clinical governance”, ao mesmo tempo que só a sua actividade consome cerca de 40% dos recursos para a Saúde. Recursos desviados da acção directa sobre os utentes dos hospitais – os doentes.
Para além da limitação da acção médica, até por falta dessa parte dos recursos alocados às instituições, tem havido nos EUA um esforço insensível que redunda em dificultar o acesso dos pacientes aos cuidados de saúde, quer encarecendo-os, quer colocando-os mais longe, ou com horários muito estritos para a sua prestação. Um outro modo, elaborado e com uma auréola científica, de afastar doentes dos centros médicos é concentrar alguns meios mais sofisticados – e caros – apenas nalguns, considerando que assim conseguirão acumular mais experiência – para além de maior rentabilização do material lá colocado. A ideia não é, obviamente, desprovida de razão, mas se essa super-especialização for levada ao exagero – apenas pelo intuito da poupança – haverá muitos doentes que nunca a eles terão acesso, simplesmente porque estão muito longe e com dificuldade de transporte, por falta dele ou de dinheiro para ele, ou de acompanhamento. E muito dinheiro será poupado, por falta de utilização. Para lá de diminuir, nessas áreas médicas, a massa crítica, fonte de progresso, e impedir em muitos hospitais a interacção clínica necessária em momentos cruciais.
Esta pressão economicista está a desesperar os nossos colegas americanos, a deprimi-los numa época que poderia ser gloriosa em termos de realização profissional. E terá inapelavelmente impacto negativo na sua actividade clínica, a agravar-se com o tempo. Mas é só na América?! Talvez lá tenha chegado primeiro, mas creio que vem a caminho. Eu diria até que já cá chegou… 
In Farpas pela nossa Saúde, 2006