quarta-feira, 24 de junho de 2020

O MEDO

O medo saiu às ruas, e esvaziou-as. Não foi o vírus, foi o medo que foi criado e que fez as pessoas esconderem-se em casa, temerosas, como fazem os animais quando, assustados por algo, se metem na toca e só de lá saem pressionados pela fome. O medo que as fez durante mais de três meses sair apenas em incursões ao supermercado para comprar mantimentos, ou em pequenos passeios desentorpecedores mas não muito longe do local onde se acoitavam.
O medo duma única doença, e que manteve as pessoas em casa, escondidas, ignorando inclusivamente todas as outras moléstias e queixas, exacerbando-se esse medo em pavor só de pensarem em ir a um hospital, lugar onde por certo os temidos vírus se concentravam e as podiam contagiar!  E foi esse medo que fez com que patologias graves e urgentes se mantivessem escondidas em casa com os pacientes, sem diagnóstico nem tratamento, com as consultas externas desertas e as urgências sem utentes. Juntamente com as salas de operações fechadas, para possível utilização dos ventiladores, tudo se juntou para parecer que o mundo só tinha de se preocupar com a covid-19 e que todas as outras doenças tinham sido consumidas por ela!
E foi esse o poder do medo. Um país quase parado, com os locais públicos e os estabelecimentos comerciais deixados às moscas. Com os hospitais de referência para a covid-19 assoberbados com trabalho e os outros meio vazios, como se a saúde afinal reinasse para além do SARS-CoV-2.
Os meses passaram, a pandemia começou a amainar na Europa, e o medo a desvanecer-se com ela. Por isso o vírus ficou nas ruas mas as pessoas começaram a voltar.
Houve muitas que entenderam bem o que se passava: que foram o confinamento e os cuidados tomados que levaram a atalhar a propagação da infecção.
Dessas, menos perceberam também que a resposta do nosso SNS a esta epidemia se fez apenas pela organização e pela concentração de meios nesta doença, e que dessa concentração resultou falta de assistência a muitos doentes, com doenças graves, muito mais graves que a virose em questão. Por, na verdade, não haver condições assistenciais para ser de outro modo. Porque o Serviço Nacional de Saúde vai dando cada vez menos resposta através dos hospitais públicos e mais pelos serviços alugados aos privados, pondo os doentes em espera, em listas cada vez maiores. Quando se sai do dia a dia e não é possível a espera, a incapacidade pública vem ao de cima.
Mas houve quem respondesse apenas ao medo, não à doença. Como perderam o medo, a doença e as insuficiências sanitárias e de assistência médica, tornadas claras por ela, deixaram de contar.
Assim, alguns deixaram de tomar as medidas de segurança necessárias, e adoptaram comportamentos de risco para transmissão da infecção como se ela tivesse deixado de existir.
Outros, aliviados do medo de não se conseguir tratar os doentes na primeira leva da pandemia, começaram logo a desmantelar o que estava preparado para lhe resistir; e mais, como as camas para covid-19 foram ficando vazias, e sem perceberem que as outras doenças que antes as enchiam não desapareceram, apenas os doentes não vão aos hospitais como não vão aos restaurantes, às lojas, aos cinemas e aos cafés, logo pensaram que afinal nem faziam falta, e eram uma despesa a abater nas suas contas de gestão hospitalar.
Dizer que estas duas atitudes revelam apenas estupidez e falta de visão é capaz de ser demasiado. E daí talvez não.
O medo é um sentimento natural, positivo quando leva a uma reacção em busca da solução para uma agressão, sendo inteligente criar as condições que tornem mais eficaz e eficiente uma futura resposta a uma situação semelhante. Ou que evitem que a situação se repita.  Mas o medo pode ser apenas uma reacção primária, cujo único fito é a sobrevivência imediata, sem capacidade de analisar o presente e sobre ele projectar o futuro, aprendendo com o que causou o medo e o modo como foi ultrapassado. Não há medo, há medos, sentidos por pessoas diferentes.
Esta pandemia mostrou o que o SNS tem de bom, mas também tornou evidentes debilidades que tem, e que urge corrigir. Tornou óbvio que vai ser preciso investir e que, pelo contrário, o desinvestimento é um péssimo caminho. Para além dos doentes deixados necessariamente para trás, houve cidades onde nesta epidemia foi preciso erguer tendas de campanha e colocar contentores à porta dos hospitais, ou encher de macas pavilhões desportivos. Pois em Coimbra isso não foi necessário.
Porque tem dois hospitais gerais centrais, e um deles pôde ser dedicado temporariamente à pandemia. Foi um exemplo do que se pretenderia noutros locais, e do que deve ser considerado como desejável.
Mas será que a lição de Coimbra não foi aprendida por quem gere a saúde no país? Inclusivamente em Coimbra? E as tendas de campanha e os contentores é que se querem como futuro do SNS?... Pois agora é que se vai ver o que queremos como Serviço Nacional de Saúde, e o que nos querem dar. Estejamos atentos ao que se vai passar. A prova da pandemia de covid-19 não nos vai enganar nesta matéria…
In Dário As Beiras, 24 de Junho de 2020

quinta-feira, 18 de junho de 2020

ENSINO PRÉ E PÓS-GRADUADO NUM
HOSPITAL GERAL CENTRAL EM COIMBRA

Ensino pré-Graduado
Passados apenas quatro anos da inauguração do Hospital dos Covões, o Centro Hospitalar de Coimbra criou a Unidade de Ensino Clínico do CHC. Integrada na Universidade de Coimbra, com um Corpo Docente e um Conselho Pedagógico próprios, partilhava com a Faculdade de Medicina de Coimbra a docência do Curso de Medicina, dando as aulas teóricas e práticas das cadeiras dos três anos do ciclo clínico, isto é, da segunda metade do Curso. Assim se manteve durante vários anos, havendo, portanto, muitos médicos, agora ilustres, que lá estudaram e tiraram o seu curso de Medicina. Só quando surgiu a implantação do numerus clausus nesse curso, entrando logo apenas noventa alunos (!) em vez das três centenas habituais, essa acção docente foi descontinuada, por obviamente não necessária.
Mas os valores do numerus clausus foram crescendo. Até a várias centenas de novo… e os alunos voltaram a ir para os Covões, agora por conta da Faculdade de Medicina, para algumas aulas teóricas nalgumas cadeiras, mas sobretudo práticas e estágios hospitalares em cadeiras clínicas do actualmente existente mestrado integrado de Medicina. Mostrando abertura e inteligência da Faculdade de Medicina, e deixando para trás alguns espectros de endogamia arrogante de outrora.
Com os alunos entrados cada ano a atingirem as cinco ou seis centenas – e a aumentarem ainda mais já no próximo ano lectivo -, com turmas práticas em cadeiras clínicas de 30 e 40 alunos (!), é óbvio que não faz qualquer sentido tentar-se desactivar como Hospital o outro Hospital Geral Central em que os estudantes de Medicina de Coimbra até agora estagiavam e podiam aprender em boas condições. Fazer isso não poderá ser por desconhecimento da realidade, nem só por incompetência.
Aliás, a dificuldade nas aulas práticas e estágios clínicos dos alunos de Medicina é reconhecida quando se prevê agora a sua ida também para clínicas privadas. Que está a ser combinada, acompanhando a desactivação do hospital público para onde iam até agora… Como se pudesse ser a mesma coisa! Como se a função duma clínica privada não fosse ganhar dinheiro tratando doentes!
Ensino pós-graduado
Desde 1973 que o Hospital dos Covões foi sede de formação pós-graduada, quer de formação geral quer de formação especializada. Foram milhares de internos que por lá passaram em 45 anos, e se formaram como especialistas.  Especialistas de qualidade espalhados por todos o país e pelo estrangeiro, todos com uma relação de amizade e de gratidão por uma instituição que se pautou sempre pelo humanismo nas relações interpessoais, entre profissionais e de profissionais para doentes. E que ressalta ainda mais quando se compara com outras instituições.
As vagas abertas ao longo dos anos nos vários serviços contribuíram antes de mais para que mais jovens médicos pudessem escolher a especialidade que gostavam, e mais especialistas se formassem em Portugal, dentro das condições mínimas de qualidade que essa formação exige.
E os internos tiveram no Hospital dos Covões a possibilidade de trabalhar em serviços que, nas várias áreas – e não só nas mais badaladas na comunicação social -, muitas vezes apresentaram inovações, novidades, avanços, resultados, apreciados e elogiados, referidos e seguidos quer nacional quer internacionalmente. E que lhe construíram o nome, quer interpares quer entre os doentes que a ele sempre acorreram, e querem acorrer, e para isso se manifestam. E que têm tornado tão difícil encerrá-lo…
E pergunta-se então: quem quer acabar com este Hospital? E porquê??...

terça-feira, 16 de junho de 2020

SOMA E SEGUE.  TÁ BEM, DÊXA…

Na semana passada a população de Coimbra manifestou-se na margem esquerda por melhores condições de assistência médica hospitalar na cidade. Há quantos anos tal não acontecia? E porquê acontece agora? Mais de dois mil manifestantes, juntando populares e pessoal de saúde, reuniram-se no polo de saúde junto ao Hospital dos Covões, num “Cordão Solidário com os Covões”, pedindo sobretudo que o Hospital fosse reactivado e recuperasse as suas funções, para que os seus doentes, agora perdidos nas listas e filas de espera do HUC, a ele pudessem voltar. Notável era a consternação indignada pelo progressivo desaparecimento dum dos dois Hospitais Gerais Centrais de Coimbra e da Região Centro, deixando o vazio que fez agora levantar a opinião pública.
Durante o período agudo da pandemia de covid-19, foi o Hospital dos Covões o escolhido como referência para combater a doença, e pôde sê-lo por manter toda a estrutura e equipamento que tinha como Hospital, pese embora ter vindo a ser fortemente despojado de recursos humanos e reduzido em serviços. Para isso os serviços ainda presentes foram esvaziados dos seus doentes, para receber os de covid, e enfermarias que estavam inexplicavelmente encerradas foram reabertas pelo mesmo motivo. Depois do bom trabalho que nele se fez, esperava-se que a administração do CHUC percebesse a importância da sua existência como Hospital, permitindo que a resposta do SNS em Coimbra e na Região Centro a um aumento brusco de doentes graves pudesse ser a adequada, não sendo possível numa altura dessas estar dependente da criação  de listas de espera, depois lentamente esvaziadas através dos hospitais privados. Mas não! Pelo contrário, aproveitou a diminuição do número de doentes infectados para voltar a encerrar as enfermarias que estava fechadas, e encerrar, ou quase, algumas que estavam abertas antes. No caminho para a sua desactivação como Hospital, tentaram mesmo encerrar-lhe a Urgência… que outros exigiram que fique aberta… mas como urgência básica, quer dizer, uma urgência como a de qualquer clínica privada ou dum hospital concelhio… Urgência hospitalar polivalente é apenas uma, a do HUC.
Depois da manifestação, e do apoio que praticamente todas as forças políticas de Coimbra expressamente lhe deram, o desmantelamento continuou, absolutamente inalterado. A enfermaria de cirurgia fica com apenas dez camas, a pneumologia fecha, a cardiologia fecha, a Unidade de Cuidados Intensivos Coronários fecha, e, para ter a certeza que estas duas últimas ficam fechadas, as respectivas camas são levadas para o HUC…
Respondendo a esta preocupação generalizada com a repercussão catastrófica da desactivação do Hospital dos Covões como Hospital, sendo transformado numa espécie de armazém ou anexo do outro, o PSD Coimbra organizou um debate público de urgência, exactamente sobre “o futuro dos Covões”. Futuro que, diga-se, é indestrinçável do futuro do CHUC e do futuro da Saúde em Coimbra e na Região Centro. Nesse debate tornou-se evidente que a fusão dos dois Hospitais, ou melhor, do CHC e do HUC, não foi benéfica. Do modo como está feita, nem se conseguiu simplesmente que 1+1 fosse igual a 2; antes se obteve, numa álgebra distorcida e maléfica, que 1+1=2-1=1. E agora, ao fim de nove anos, a população sai à rua para reclamar por melhores cuidados de saúde nos hospitais. Os doentes de Coimbra vão cada vez mais pedir segundas opiniões a Lisboa ou ao Porto, vão cada vez mais ser tratados nessas cidades, e há especialistas vindos de fora de Coimbra dar consultas em hospitais privados em Coimbra. Se alguém precisar de ir a uma Urgência polivalente, em vez de ir à única de cá e esperar oito horas para ser atendido, pode ir ao Porto, a uma das duas Urgências dessa cidade, ser visto e tratado e regressar, e poupa muito tempo… Num passado muito recente, de há nove anos para trás, quando havia CHC e HUC, Coimbra era uma referência na saúde, que os doentes procuravam e que os jovens médicos escolhiam em primeiro lugar para vir formar-se, e onde queriam ficar a trabalhar. Agora não escolhem, não querem vir e não ficam, indo tantos e tantos profissionais de saúde trabalhar e viver para outras cidades, enriquecendo a sua saúde e enriquecendo-as.
Para tentar reverter o desmantelamento do Hospital, surgiu uma Petição pública, já enviada, com 4500 assinaturas, e aceite para discussão na Assembleia da República, para que lhe seja devolvida a autonomia de gestão de modo a reorganizar-se para poder tratar os seus doentes, que dele necessitam e o querem.
Perante todo este quadro, seria minimamente lógico que o conselho de administração do CHUC parasse para reflectir, e tentasse perceber por que tanta gente, desde utentes, e políticos, até ao pessoal de saúde, se opõe frontalmente à destruição do Hospital dos Covões. Tanta insistência destruidora dá que pensar. E dá que pensar sobretudo a indiferença pelos argumentos, queixas e reclamações apresentados. Num assunto que é de saúde pública, da saúde do país e de todos nós, parece-nos ouvir a reposta do compadre alentejano às razões que o incomodam: “Tá bem, dêxa…”
In Diário As Beiras, Junho 2020
NO RESCALDO DUM DEBATE SOBRE O FUTURO DOS COVÕES

Congratula-se quem teve a ideia e a coragem de promover um debate sobre os Covões. Que é como diz, sobre o CHUC, porque as duas coisas são indestrinçáveis. E coragem porque dum debate aberto de ideias resulta exposto o que cada um pensa e, na realidade quer, e as razões que os movem a todos.
Ficou claro neste debate, promovido pelo PSD de Coimbra, que quanto ao tema há apenas, globalmente, duas posições. Uma, defendida pelo povo que saiu à rua acompanhando muitos profissionais, pela qual o Hospital dos Covões tem de ser isso mesmo, um Hospital, capaz de fazer frente a uma pandemia como de tratar os doentes que a ele acorram no dia a dia, e querem acorrer. E que a sua fusão no CHUC, e o modo como ela foi feita, fez com que deixasse de ser. A outra, defende que continue a ser aquilo em que nos nove anos de fusão o tentaram tornar, que é uma "coisa qualquer" que não um Hospital. A dúvida para esses está apenas em escolher que coisa há-de ser, mas sempre como acrescento do HUC, o único hospital geral central que pretendem que haja em Coimbra.
As duas posições ressaltaram perfeitamente claras. A segunda até no repúdio de falar do passado, de há nove anos apenas, de quando as pessoas de Coimbra não saíam à rua para reclamar por melhores cuidados de saúde, não iam pedir segundas opiniões a Lisboa ou ao Porto, nem recorriam às Urgências nessas cidades (essas sim, referências da Saúde no nosso país...) , nem esperavam por especialistas vindos de fora de Coimbra dar consultas em instituições privadas nesta cidade, nem iam cada vez mais ser tratadas em Lisboa ou no Porto. No repudiar que se fale dum passado tão recente, em que Coimbra era uma referência na saúde. Que os doentes procuravam e em que os jovens médicos queriam vir formar-se e onde queriam ficar a trabalhar. O passado tão recente e de tanto êxito é apontado condescendentemente como "coisa do passado", e dizem que é preciso é procurar "qualquer coisa" diferente do que existe e foi começado de há nove anos para cá, porque já se viu que o que foi feito não serve a saúde publica nesta cidade e na Região Centro, e que o povo já se apercebeu disso.
Os que querem que o Hospital dos Covões volte a ser um Hospital são uns revivalistas. Porque querem reviver numa cidade em que a Saúde não era um problema, e para isso querem que se desfaça o que nesse campo foi mal feito nos últimos anos.
Os outros todos querem, na verdade, manter o que foi feito. Isto é, que Coimbra tenha apenas um único Hospital Geral Central (o IPO não é um é Hospital Geral, é um Hospital Especializado, e, aliás, escapou à fusão apenas porque a sua administração não quis...), e tenha depois "umas coisas" feitas "nos Covões". Ou cirurgia de ambulatório e umas consultas, ou dois ou três serviços "de ponta", ou uns laboratórios, ou um centro de investigação (que já foi criado após a fusão, aliás, e nunca funcionou!), ou um centro de estudo de geriatria, ou de rejuvenescimento de velhos, ou um lar de idosos. Ou um centro de pandemias, que sem ser um Hospital polivalente não sei como seria... Enfim, uma coisa qualquer, Hospital é que não, que é o que as pessoas precisam e querem! Ficou claro que, para estes, isso é que não. Hospital em Coimbra há só um, o de Celas e mais nenhum. Até porque para mais hospitais já temos os privados, isso não se pode esquecer...
Ficaram as posições bem definidas. Quem quer o Hospital a funcionar de novo como Hospital, devolvido aos seus doentes, e quem o quer desmembrado, fragmentado, dividido em bocados. A dúvida para estes reside apenas com que bocados deve ficar. Ou antes, com que bocados podem ficar os que por lá ficarem.
Não entendem os que lhe anseiam pelos bocados que nunca os poderão ter se o resto tiver desaparecido, se não trabalharem num Hospital, com intercâmbio constante com os colegas que lhes tratam os mesmos doentes, mas sim num sítio com uns aparelhos e uns profissionais de saúde. Não querem ver, na sua ânsia pessoal, que um Hospital é muito mais do que isso, e cada um, na sua área, só pode progredir se estiver incluído num conjunto bem organizado, interactivo, com uma dimensão apropriada e funcional, lutando todos pelo mesmo objectivo: tratar cada doente da melhor maneira possível, Nestas condições, todos juntos são muito mais que a soma das partes. Que é o que se passava antes. Desculpem lá falar do passado. De há nove aninhos...
In Campeão das Províncias, Junho 2020


quinta-feira, 11 de junho de 2020

A PESTE E O PRÉMIO

No ano 19 do século XXI o mundo foi visitado por mais uma “peste”, neste caso uma pandemia por um vírus respiratório, um novo coronavírus chamado SARS-CoV-2 (Coronavírus 2 da Insuficiência Respiratória Aguda Grave), que provoca a “doença pelo coronavírus de 2019”, ou covid-19. Esta afecta fundamentalmente o aparelho respiratório, mas atinge também outros órgãos e sistemas, e pode redundar em falência orgânica múltipla e morte. A pandemia teve início numa evoluída e cosmopolita cidade chinesa, Wuhan, de 11 milhões de habitantes, aparentemente pela passagem dum vírus de animais selvagens para a espécie humana, onde se tornou patogénico.
Curiosamente, a pandemia atingiu primeiro um conjunto de países do que podemos chamar primeiro mundo, e da Europa, muito provavelmente por serem aqueles mais visitados por pessoas vindas, desde logo, da China, e, depois, dos vários locais que iam tendo mais casos. Poupando, assim, relativamente, os países com menos intercâmbio de viajantes, a outros pôs rapidamente à prova os respectivos sistemas de saúde, pela elevada taxa e rapidez de contágio e a gravidade que podia revestir nalguns doentes, sobretudo mais idosos e mais fragilizados. O elevado número de casos ao mesmo tempo, com necessidade de cuidados intensivos em bastantes, provocou um quase caos sanitário em países como Itália, Espanha, Bélgica, Holanda, chegando ao ponto de aí criarem uma idade limite para os doentes poderem ser admitidos em unidades de cuidados intensivos, a fim de lhes reduzir o número, adaptando-o às vagas!
A evolução naqueles países serviu de aviso para os outros, sobretudo aqueles que viam também crescer o número de casos. Portugal foi um deles, e foram tomadas várias medidas, como a quarentena dos infectados e suspeitos de infecção, o distanciamento físico, o confinamento, a lavagem das mãos, o uso de máscara em espaços fechados e com muitas pessoas. Os doentes aumentaram rapidamente, e se muitos deles puderam ficar em casa, confinados, outros tiveram de ser internados, em enfermarias ou em unidades de cuidados intensivos. A ventilação artificial é, nestes últimos, muito importante, e equacionou-se desde logo a necessidade de aumentar o número de ventiladores disponíveis, adquirindo mais e disponibilizando para o efeito os das salas de operações e dos recobros cirúrgicos. Para isso, salas de operações tiveram de fechar, e as enfermarias foram sendo ocupadas por infectados com o vírus e passaram a ser um foco de contágio. Nalguns hospitais, cheias as camas, houve que armar tendas à entrada ou colocar macas em pavilhões desportivos, e nalguns países chegou-se mesmo a construir hospitais de campanha.
A resposta do Serviço Nacional de Saúde foi capaz, mercê da sua organização, mas depressa se percebeu tê-lo sido por se terem concentrado os recursos numa única doença: a covid-19. Tudo o mais foi sendo deixado para trás, com salas de operações fechadas, consultas vazias, exames por fazer, hospitais com enfermarias bloqueadas por doentes infectados. Numa doença que afectou até agora apenas cerca de 3 em cada 1000 cidadãos portugueses, um sinal objectivo de eficiência do SNS seria ter combatido a epidemia sem deixar para depois as outras patologias, pelo menos aquelas mais urgentes e que podem levar a um aumento de mortes a curto ou médio prazo, embora sem a contabilidade diária dos mortos que agora se faz… Isto é, seria ter uma folga na resposta pública às doenças de modo que quando houvesse um aumento brusco de doentes eles pudessem ser atempada e adequadamente tratados, sem se ter de recorrer à almofada que vai permitindo dizer que o serviço público de saúde é eficiente: as listas de espera! Escoando-se estas para o privado por conta do público…
Um caso particular foi o de Coimbra, porque, como referência hospitalar da Região Centro, tem há quase 50 anos dois Hospitais Centrais, embora agora unidos numa fusão imposta pela troika em 2011. Essa “fusão”, dando um chamado Centro Hospitalar, tem sido, ao contrário, entendida pelo seu conselho de administração como a criação dum único hospital, junção de dois em um, e o que tem sido tentado é fazer desaparecer um (Covões) para ficar só o outro. Pois felizmente que não o conseguiram, e o Hospital dos Covões, apesar de fortemente esvaziado de recursos humanos e de Serviços, mantém a sua estrutura de hospital e a sua tecnologia de Hospital Central (também por necessidade do HUC de a ela recorrer…), porque foi isso que tornou possível em Coimbra uma solução única nesta pandemia: reservar um Hospital para Hospital de Referência, mantendo o outro Hospital da cidade liberto para outras patologias e tratamentos. Ficaram separadas as águas (e as infecções), e para ter as camas necessárias para os infectados bastou esvaziar as enfermarias dos doentes que lá estavam e reabrir enfermarias que, inexplicavelmente, estavam fechadas. E o pessoal do Hospital, juntamente com outro que o veio momentaneamente repovoar, depois de acumulado no outro, conseguiram brilhantemente debelar o surto da doença.  
Seria previsível que o conselho de administração, face a esta ocorrência, percebesse finalmente a importância de ter recebido dois Hospitais com capacidade para tratar doenças complexas, como esta, podendo um ser reservado para o efeito, deixando o outro livre para o restante trabalho médico. Mas não, pelo contrário! Mal se nota um abrandamento da pandemia, logo quer fechar o que foi aberto, mais o que estava aberto e foi esvaziado para internar os infectados. E mais, propõe-se encerrar liminarmente o Serviço de Urgência, embora depois se contente, para já, em passá-lo a urgência básica, igual à urgência das clínicas privadas da cidade. Será que pensa que a pandemia já acabou?... Será que acha que os outros doentes, os que antes da pandemia enchiam as Urgências dos dois Hospitais, e inundavam a do HUC, ao ponto de gerar tempos de espera por atendimento de 8 e 10 horas, desapareceram todos com a covid-19?! Será que não entende que os doentes agora não vão aos Hospitais pela mesma razão que não vão aos restaurantes e aos cinemas? Por medo do vírus?... Mesmo os realmente, e muito, doentes?...
Em vez de se reconhecer a vantagem de ter dois Hospitais, que foi óbvia nesta situação, insiste-se cegamente na destruição de um!! Como diz o povo, “mais vale cair em graça que ser engraçado!”... Neste caso, “se não caíste em graça, de nada te vale ser engraçado”…
O Senhor Presidente da República falou dos que merecem um prémio pelo que fizeram pela comunidade nesta “peste”. Concordo que merecem, não só pelo resultado mas, e sobretudo, pelo esforço que fizeram. Mas com os que o fizeram, denodadamente, no Hospital dos Covões, o Senhor Presidente escusa de se incomodar: o “prémio” já lhes foi dado pelo conselho de administração da instituição onde trabalham…
In Campeão das Províncias digital, 9 de Junho 2020

HOSPITAL DOS COVÕES:
DA LINHA DA FRENTE PARA O FIM DA LINHA

Coimbra é referência para a saúde da Região Centro, com 2.230.000 pessoas, tem uma Universidade grande, uma Faculdade de Medicina grande, várias escolas de vários tipos e graus ligadas à saúde, vários institutos de investigação nessa área, e, por isso, tem muitos profissionais de saúde, formados e em formação, e muitos doentes. E, naturalmente, vários hospitais. Entre eles dois Hospitais Gerais Centrais, existindo e coexistindo há quase 50 anos, e constituindo a tal referência para a Região Centro em matéria de hospitais centrais, com a tecnologia e os recursos humanos necessários, fim de linha na referenciação de doentes desta Região.
Por lei de 2011 fez-se a fusão dos dois hospitais centrais: do HUC com o CHC (fundado em 1973, Hospital dos Covões, Maternidade Bissaya Barreto e Hospital Pediátrico), dela resultando o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Que, ao contrário do que o nome diz, não é um centro hospitalar, antes tem sido entendido como um hospital único com várias instalações espalhadas pela cidade a quilómetros de distância umas das outras. Nesta conformidade, o conselho de administração tem-se esforçado por concentrar todas as valências de hospital geral central no HUC, a pouco e pouco esvaziando de recursos humanos e de serviços o Hospital dos Covões. Felizmente a tecnologia lá instalada permanece, com Unidade de Cuidados Intensivos, Hemodiálise, Unidade de Cuidados Intensivos Coronários, Unidade de Hemodinâmica, Serviço de Urgência, Bloco Operatório, Geral e de Ambulatório, TAC, Ressonância Magnética Nuclear… porque foi isso que lhe permitiu ser o Hospital de Referência para covid-19 em Coimbra e na Região Centro. Função de que se saiu muito bem, mostrando toda a capacidade que tem como Hospital. E que é, convenhamos, o que o tem tornado difícil de matar, apesar dos continuados esforços nesse sentido…
Da acumulação de tudo no HUC resultou o seu superpovoamento, em doentes e funcionários (nas mesmas instalações de há já 33 anos), a sua falta de resposta atempada, com listas de espera cada vez maiores para consultas, exames e cirurgias (em grande medida escoadas para as clínicas privadas), taxas de infecção hospitalar proibitivas (que já levaram ao encerramento temporário de serviços), tempos de espera de 8 e 10 horas na Urgência, sobrecarga do pessoal. Tudo isto acompanhando a progressiva desactivação do Hospital dos Covões.
Esta situação tem sido exposta repetidamente, perante a passividade de quem não a devia ter. Esta indiferença levou mesmo, mais recentemente, a uma Petição pública, contestando essa gestão do CHUC (que nunca foi explicitada em qualquer plano director, aliás) e pedindo a autonomia de gestão para o Hospital dos Covões, devolvendo-o aos seus doentes de tantos anos, à cidade e à Região. Deixando de ser uma espécie de casa da quinta do outro, que serve para arrumar o que não se quer ou de momento não se pode acomodar noutro lado. Porque, obviamente, há necessidade de dois Hospitais, e não de um com um acrescento.  
Tudo em vão. E agora ultrapassou-se o limite. O conselho de administração do CHUC, depois de três meses do Hospital dos Covões na linha da frente a lutar contra a pandemia de covid-19, como Hospital de Referência, propôs-se encerrar a Urgência desse Hospital. A ARS Centro contrapôs mantê-la aberta como... Urgência Básica! Quer dizer, com os mesmos recursos da urgência duma clínica privada ou dum hospital concelhio!  Quando a Urgência do HUC está absolutamente assoberbada, e as Urgências de Coimbra são o fim de linha de toda a Região Centro. Se isto for por diante, resta desejar felicidades aos doentes que forem ao HUC e a quem lá trabalha!
A única explicação razoável para isto tudo é economicista, e errada. Porque outra seria um “clubismo” hospitalar bacoco, que a existir seria demasiado mau… Fiquemos pelo economicismo. É simplesmente o governo não querer gastar dinheiro na Saúde. E o erro da medida advém do facto de fundir dois Hospitais que fazem falta em um único insuficiente não trazer vantagem económica nenhuma, para além de ser uma quebra grande na prestação de cuidados de saúde às populações. Mas a verdade é que o extremo que esta última decisão constitui deixa antever uma atitude de austeridade, que é negada mas parece vir a caminho. Uma austeridade provocada por problemas económicos resultantes do combate à pandemia, e aplicada antes de mais no hospital que ajudou, e decisivamente, a lutar contra ela! Se não fosse trágico, até tinha graça! Esperando que ela se esteja a ir embora… e não volte… nem ela nem outra…  Porque se isso acontecer, e sem o Hospital que recebeu o embate, lá terão os doentes de se misturar com outros num mesmo hospital superlotado ou, não cabendo, em camas em pavilhões desportivos, ou em tendas de campanha montadas à porta do hospital…  É o que se chama ter vistas largas em saúde…
In Diário As Beiras on-line, 9 de Junho de 2020

domingo, 31 de maio de 2020

UM CIRURGIÃO, AS CRIANÇAS E AS MATERNIDADES

Fui aluno em Obstetrícia do Prof. Albertino Barros, regente da Cadeira, e do Prof. Mário Mendes, do qual tantos anos depois vim a ser companheiro em Rotary. Tínhamos aulas no que agora é o edifício da Administração Regional de Saúde do Centro, e que na altura dava pelo nome de Maternidade Daniel de Matos. Longe do Hospital da Universidade, que nunca teve Obstetrícia como Serviço nele incluído, porque na altura, e como aconteceu com a Maternidade Bissaya Barreto, também longe do Hospital dos Covões, era pretendido que as mulheres dessem à luz afastadas do burburinho, da agitação e, diga-se, das infecções, que mais ou menos atingem todos os hospitais. Porque a gravidez não é uma doença, e o nascimento é algo perfeitamente fisiológico, e devemos dar às crianças a possibilidade de quando chegam a este mundo o fazerem em paz e sossego. É isso que, no fundo, todos ansiamos para os dois momentos mais cruciais da nossa vida: quando ela começa e quando termina.
Lembro-me, aluno e jovem interno, do momento em que os bebés, depois de limpos e embrulhados para não perderem calor, eram trazidos até à mãe. Que os olhava como só uma mãe consegue olhar, como uma parte dela própria, que dela saiu e que vai querer manter por perto o mais tempo possível ao longo da vida. E ali ficavam, no quarto ou na enfermaria, junto à cama materna. Lembro-me de o Prof. Albertino dizer que nos Estados Unidos da América consideravam pouco higiénico e até perigoso manter os recém-nascidos perto das mães, e por isso tinham começado a  juntá-los todos em  enfermarias próprias, afastados dos adultos. Ali na maternidade nunca tinha sido possível implementar isso, porque não havia condições para tal. Mas uns anos depois, na Europa, surgiu a constatação que é bom os bebés logo que nascem serem colocados junto às mães, para lhes sentirem o calor, e o cheiro, e ouvirem a voz, que normalmente os irão acompanhar durante muito tempo, e por isso se sentirem acarinhados e seguros,  o que é um bom começo para a sua vida. E assim se voltou a fazer na Europa. E o Prof. Albertino, com a sua fleuma, concluía: “Ora aqui está por que nós, por falta de espaço, andámos durante anos à frente na Europa!”.
Já como interno de cirurgia, e como cirurgião, trabalhei no Hospital Pediátrico, criado por Bissaya Barreto, e quando por lá havia apenas um cirurgião pediátrico. Depois de as maternidades poderem ser centros materno-infantis, ainda dentro do argumento da proximidade entre mães e filhos, a lógica da criação dos hospitais pediátricos foi, por um lado, que a possível patologia dum recém-nascido é muito específica, e diferente da que é encontrada nas restantes idades pediátricas, e, por outro, que as crianças não são adultos em tamanho pequeno, e por isso não deverão ser tratados em hospitais de adultos. Ficaram, assim, em Coimbra, o Centro Hospitalar de Coimbra, com o Hospital dos Covões, a Maternidade Bissaya Barreto e o Hospital Pediátrico, este concentrando toda a pediatria da cidade, e o Hospital da Universidade de Coimbra e a Maternidade Daniel de Matos.
O Hospital Pediátrico acabou por se tornar praticamente autónomo, com todas as especialidades, só lá indo eu, e outros, prestar colaboração muito esporadicamente, sempre que necessário. Na Maternidade Bissaya Barreto mantiveram-se a obstetrícia e a ginecologia, bem com a neonatologia, que abarca, como o nome diz, o apoio aos recém-nascidos, na saúde e na doença.  Como cirurgião fui lá sendo ocasionalmente chamado, por rotina ou de urgência, e do mesmo modo alguns especialistas doutras áreas: medicina interna, cardiologia, nefrologia, urologia. Embora a gravidez não seja uma doença, pode haver grávidas doentes, sempre assim foi; mas agora se calhar um pouco mais, na medida em que as mulheres cada vez engravidam mais tarde na sua vida. Porque os casais jovens têm poucas condições económicas, as mulheres, também por isso, mas por desejo pessoal também, têm uma vida profissional mais activa e nela se aplicam mais intensamente, e a medicina da reprodução vai conseguindo que concebam às vezes quando já não o pensavam conseguir. Sendo, pois, as grávidas, em média, menos jovens, é provável que tenham maior possibilidade de sofrer de alguma coisa. Por isso tem surgido a ideia de aproximar as maternidades dos hospitais gerais.
Mas fazê-las desaparecer, tornando-as em mais um Serviço hospitalar, seria levar as crianças a nascerem no meio do burburinho, da agitação e das infecções. E tal tem acontecido, nalgumas cidades, por meras razões economicistas, sendo alegado, para as encobrir, que a natalidade baixou muito. E que, por isso - tem de concluir-se -, os bebés deixaram de ter direito a um sítio especial para virem ao mundo... Não são em número suficiente que o justifique… Nada de mais errado! Não é essa a atitude a ter, tratando as grávidas como doentes e recebendo-lhes os filhos como resultado dessa doença. E, por outro lado, a falta de “clientes” não pode justificar a falta de qualidade no seu atendimento…  Há é que criar todas as condições para que os “clientes” aumentem!
E isso passa por maternidades bem dimensionadas – que em Portugal corresponde a maternidades que possam vir a ter muitos mais partos do que os que têm agora, já que tanto precisamos que eles aumentem! -, contruídas num local aprazível, tranquilo, saudável, em que as grávidas não sejam recebidas como mais um doente, e as crianças cheguem a este mundo sem sentirem o stress duma instituição hospitalar. E, já agora, perto dum hospital geral que lhes dê o apoio de que precisarem.
E é esta a visão que um cirurgião tem deste assunto, visto de fora e não eventualmente deformado pela lide obstétrica diária. Mas tendo-o acompanhado ao longo dos anos, como profissional, activamente, daqueles cuja necessidade agora é por alguns invocada para na realidade extinguirem as maternidades e incluírem-nas nos hospitais. Por falta de espaço? Por falta de compreensão? Por desprezo por quem dá à luz e por quem nasce? Espero bem que se encontre o espaço adequado e a compreensão não falte.  Quem nos vem substituir neste mundo merece. Assim nós os mereçamos.
In Boletim do Rotary Club de Coimbra, Maio de 2020

sábado, 30 de maio de 2020

OS MÉDICOS, OS DOENTES E A SAÚDE

O Dr. Frank Lewis Jr., ex-Presidente da Associação Americana para a Cirurgia do Trauma, escreveu um artigo notável no Journal of Trauma, dando corpo às preocupações dos médicos americanos sobre a saúde naquele país, e a senda que tem vindo a seguir. O que se passa num País de topo na medicina mundial é com certeza importante para todos, e por isso há que conhecê-lo cuidadosamente, analisá-lo e estabelecer os paralelos possíveis com o nosso próprio País.
Diz o Dr. Lewis que nunca como agora, no início deste século, houve mais razões para que “os médicos se sentissem os mais felizes dos profissionais”. Na verdade, “do ponto de vista científico vivemos na era dourada da medicina. As conquistas médicas dos últimos 50 anos excederam em muito tudo o que se conseguiu anteriormente”. Este extraordinário avanço científico permitiu aos profissionais médicos a realização de actos até aqui difíceis de imaginar, pelo menos durante as suas vidas, e deles tirarem o deleite profissional que quiçá só quem está imbuído da mística da medicina pode entender. Deviam por isso estar felizes, mas não estão. “De facto o oposto é que é verdadeiro, e os médicos estão em geral desmoralizados e infelizes. Sentem que perderam o controlo da sua prática médica para administradores mais interessados em lucros que no bem-estar dos doentes, e o seu tempo profissional é cada vez mais consumido por preenchimento de papelada administrativa e por discussões com pessoal de secretaria, tentando obter autorizações para tratar dos seus doentes”. Nos Estados Unidos da América. E cá não?
O Dr. Frank Lewis continua: “- O aumento dos custos da saúde está também a afectar a prestação dos cuidados de saúde por outros profissionais, particularmente os enfermeiros. Num esforço de poupança, quase todos os hospitais estão a reduzir o número de enfermeiros ao mínimo aceitável, e até abaixo disso. E têm vindo a empregar cada vez mais pessoas menos qualificadas e menos treinadas para sempre que possível substituírem o pessoal de enfermagem, criando-lhes uns títulos eufemísticos que apenas servem para esconder a sua falta de treino e de preparação formal.” Mas ficam baratos. A consequência disto é a “redução da qualidade da assistência de enfermagem prestada aos doentes internados, sobretudo aos mais graves, a par com um aumento da sobrecarga laboral e de stress dos enfermeiros”.  
Os médicos querem sobretudo tratar os doentes da melhor maneira possível, e realizam-se pessoal e profissionalmente com isso. Os administradores, pelo contrário, só se interessam pelos custos, e é esse o objectivo actual da sua presença nos hospitais. Embora fosse curial pensar que não, que servissem acima de tudo para facilitar a tarefa dos médicos e ajudar a criar as condições pessoais, profissionais e tecnológicas para eles exercerem a melhor medicina possível, que é essa que realmente fica, no fim das contas todas feitas, mais barata, senão ao hospital com certeza ao País. Por lá têm tendência para se imiscuir na actividade clínica e depreciar a “clinical governance”, ao mesmo tempo que só a sua actividade consome cerca de 40% dos recursos para a Saúde. Recursos desviados da acção directa sobre os utentes dos hospitais – os doentes.
Para além da limitação da acção médica, até por falta dessa parte dos recursos alocados às instituições, tem havido nos EUA um esforço insensível que redunda em dificultar o acesso dos pacientes aos cuidados de saúde, quer encarecendo-os, quer colocando-os mais longe, ou com horários muito estritos para a sua prestação. Um outro modo, elaborado e com uma auréola científica, de afastar doentes dos centros médicos é concentrar alguns meios mais sofisticados – e caros – apenas nalguns, considerando que assim conseguirão acumular mais experiência – para além de maior rentabilização do material lá colocado. A ideia não é, obviamente, desprovida de razão, mas se essa super-especialização for levada ao exagero – apenas pelo intuito da poupança – haverá muitos doentes que nunca a eles terão acesso, simplesmente porque estão muito longe e com dificuldade de transporte, por falta dele ou de dinheiro para ele, ou de acompanhamento. E muito dinheiro será poupado, por falta de utilização. Para lá de diminuir, nessas áreas médicas, a massa crítica, fonte de progresso, e impedir em muitos hospitais a interacção clínica necessária em momentos cruciais.
Esta pressão economicista está a desesperar os nossos colegas americanos, a deprimi-los numa época que poderia ser gloriosa em termos de realização profissional. E terá inapelavelmente impacto negativo na sua actividade clínica, a agravar-se com o tempo. Mas é só na América?! Talvez lá tenha chegado primeiro, mas creio que vem a caminho. Eu diria até que já cá chegou… 
In Farpas pela nossa Saúde, 2006

quinta-feira, 14 de maio de 2020

E um dia vieram os médicos
ou
O SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA EM 1975

Quis o acaso que eu integrasse o curso de Medicina que começou o Serviço Médico à Periferia, em 1975. Fiz parte nessa altura da chamada Comissão Nacional de Policlínicos, com representantes do Norte, Centro e Sul, que foi quem discutiu com o governo a ida dos jovens médicos para a periferia, e por isso posso falar na primeira pessoa do que aconteceu, e com conhecimento directo de causa.
O nosso contacto com o Ministério da Saúde era através da então existente Direcção Geral dos Hospitais, e logo nos apercebemos que da parte deles não havia uma ideia precisa do que esse “serviço” deveria ser, de modo que tudo ficou em grande medida entregue a nós próprios, e à nossa iniciativa e capacidade de organização, em cada Região e depois em cada grupo formado. Esses grupos constituíram-se ad hoc, por amizades, simpatias, maior convivência habitual, idiossincrasias, credos políticos, etc. A sua distribuição pelas várias localizações foi sorteada, depois dos locais terem sido escolhidos por uma comissão designada para o efeito em cada Região.
Tínhamos feito o internato geral, na altura composto de um ano de prática clínica (findo o qual nos inscrevíamos na Ordem dos Médicos) e catorze meses de internato de policlínica, e aguardávamos o início do internato complementar, pelo qual tiraríamos uma especialidade hospitalar (os cuidados de saúde primários como especialidade ainda não existiam). E foi nesse interregno que se veio instalar a possibilidade de irmos fazer um serviço médico na periferia, fora dos grandes centros e dos hospitais estatais então existentes, um pouco à semelhança das chamadas “campanhas de dinamização cultural” dos militares. Recorde-se que estávamos ainda num período de agitação revolucionária pós-Abril de 1974, com o chamado Movimento das Forças Armadas (MFA, motor do golpe revolucionário) empenhado em dinamizar e modificar o interior recôndito do país, dentro do entendimento político dominante.
Alguns colegas queriam decididamente ir, por razões políticas, animados de espírito revolucionário. E outros não queriam ir, também por razões políticas, de sinal contrário. Mas a grande maioria queria realmente colaborar em algo que ajudasse a dinamizar o país, a torná-lo melhor, convictos de que se estava a viver uma mudança. Só que daí a saírem da sua rotina, do seu conforto, faltava um bom bocado, em que um certo egoísmo, ou egocentrismo, marcava posição… E, sobretudo, viam com preocupação interromper a sua carreira, ainda mal começada, que ao tempo se resumia à via hospitalar ou à académica, ou ambas.
A minha postura pessoal dalguma rejeição assentava, para além da carreira, no facto de achar – e a lógica, apesar de tudo o que depois se passou, continua a parecer-me presente – que seria apenas populismo enviar médicos inexperientes para zonas sem cuidados médicos organizados, em vez de criar verdadeiros hospitais periféricos, povoando-os com especialistas, e só depois lá colocar médicos em fase de aprendizagem. A isso se juntava o facto de, como a grande maioria dos colegas de Coimbra, já ter perdido um ano seis anos antes, aquando da greve estudantil de 1969. Achava, portanto, que se anunciava simplesmente outro ano de atraso!
Tudo foi discutido em reuniões gerais de médicos, cujas conclusões, votadas na assembleia, eram transmitidas ao Director Geral dos Hospitais pelos respectivos elementos da Comissão (concordassem ou não individualmente com elas…). Acabou por ser decidida a nossa ida, com o nosso acordo, e o que vou descrever diz respeito à Região Centro, uma vez que não houve disposições ministeriais que dessem uma forma e um conteúdo definidos ao trabalho a executar, e que permitissem avaliá-lo depois.
A escolha dos locais recaiu sobre as zonas “piores”, quer dizer, aquelas com maiores carências, e com mais dificuldades sanitárias, onde se pressupunha mais necessária a presença de médicos. Isto é, para além de periferia, escolhemos a extrema periferia. Não pelas vilas onde sediámos as equipas, mas pelo território envolvente e que seria o objectivo principal da nossa acção. Esse era o nosso projecto. À minha equipa, constituída por cinco rapazes e uma rapariga, calhou Castro Daire, terra onde, como diz o outro, fomos muito felizes, e fizemos amigos, entre eles os três médicos locais, os Drs. Zeca, Jorge e Júlio, agora já falecidos, e dos quais guardamos as melhores recordações pessoais. Ofereceram-nos mesmo um jantar festivo de despedida, nas termas do Carvalhal.
Ficámos a viver numa velha casa parcamente mobilada (se é que se pode dizer assim…), perto do Hospital da Misericórdia, o qual tinha ao lado o posto clínico das Caixas de Previdência, onde os médicos locais, com os quais não mantivemos contacto profissional, faziam umas consultas, para além de ocasionalmente internarem uns doentes no hospital. Aqui encontrámos um grupo de militares da dinamização cultural do MFA a pernoitar, os quais, elucidados por nós que precisaríamos das camas do hospital para deitar doentes, foram aboletar-se na prisão do Tribunal, felizmente na altura sem “hóspedes”. Brincávamos então entre nós dizendo que tínhamos começado por meter o MFA na cadeia!
Organizámos duas enfermarias, homens e mulheres, num total de 27 camas, com pessoal auxiliar da Misericórdia e quatro enfermeiros, uma da Misericórdia e mais três do “posto das Caixas”. Estes vieram voluntariamente trabalhar connosco, também eles entusiasmados com a novidade e com a obra que poderíamos todos juntos fazer, percebendo que seria muito mais do que tinham sido até aí chamados a fazer. Estabelecemos as consultas externas, diárias e com horário fixo, e as urgências, de 24 horas, todos os dias, incluindo fins de semana, sempre com médico e enfermeiro em presença física. Recebíamos doentes agudos e crónicos, e traumatizados de todos os tipos, enviando para Viseu só os que não conseguíamos estudar ou tratar em condições. Desbridamento de feridas, pensos, suturas, talas, gessos, passaram a ser a nossa rotina, com doentes internados pelos mais variados motivos, com visita médica diária e cuidados sempre que necessários. O nosso maior receio no início eram os partos, porque só um de nós queria ir – e foi – para Obstetrícia; por isso pedimos ao Director da Maternidade Bissaya Barreto, Dr. Vicente Souto, que nos desse umas lições eminentemente práticas, e tudo correu bem igualmente nessa matéria.
Pela relação de amizade que estabelecemos com outro jovem, o responsável administrativo do posto, conseguimos, mercê também do momento de agitação que se vivia no país, que o que fosse feito aos doentes beneficiários das Caixas de Previdência que vinham ao hospital, por doença natural ou por acidente, fosse imediatamente pago à Misericórdia, mas movimentando nós o dinheiro respectivo. Desse modo pudemos aplicá-lo no próprio hospital, em camas, janelas, cozinha, material de consumo e outro, mobiliário vário, medicamentos. Neste último campo usávamos muitas amostras, mas tudo o resto que fazíamos a esses doentes era pago, e dava para os que não pagavam nada. E o afluxo de pacientes foi crescendo de dia para dia. Depois do dinheiro que aplicámos no edifício e no seu recheio e gastámos com os doentes, deixámos 200 mil escudos na conta do hospital quando viemos embora!
Mas o objectivo principal era a extrema periferia, e por isso abrimos seis postos de consulta, um para cada um de nós, onde íamos uma vez por semana, excepto quando nevava de modo a interromper o caminho para lá, o que no meu posto de Monteiras aconteceu uma meia dúzia de vezes. No fim de semana ficava apenas um de serviço no hospital, e esse folgava na semana seguinte em Coimbra. No entanto, o “seu” posto não ficava sem consulta, e era um dos colegas que o ia sempre substituir. E também fazíamos visitas ao domicílio, às vezes num jeep com um dos militares do grupo lá destacado, um tenente veterinário que foi o único com quem convivemos e que se tornou nosso amigo. Tendo vivido toda a vida em ambiente citadino, foi para mim um choque encontrar pessoas para quem a falta de médico era apenas um pequeno pormenor, já que não tinham electricidade, água canalizada, sanitários, estradas asfaltadas. Foi para mim uma experiência marcante visitar essas pessoas como médico, ir às suas casas, comer com elas do que tinham (pão, chouriço, presunto, queijo, vinho, uma bela sopa cozinhada num pote de ferro na lareira…), numa mesa de madeira à luz dum candeeiro de petróleo, e que me ofereciam com gentileza, não como paga de nada mas em sinal de agradecimento pela minha presença ali com eles.
Alguma dessa gente esquecida esteve internada no hospital, e muitos outros foram vistos em consulta perto de suas casas. Foi um país a acordar para outro, e este a perceber que afinal queriam que ele vivesse. E a nossa ida contribuiu para estabelecer esse contacto, e dar esse sinal, ao mesmo tempo que estabelecemos uma rede de cuidados que mais tarde evoluiria para os cuidados de saúde primários. Pondo a funcionar também um hospital público, com atendimento contínuo de proximidade, resolvendo os problemas da maior parte dos que nos procuravam, localmente, com uma grande comodidade para eles e um enorme ganho de tempo, e desviando doentes de hospitais maiores e com mais recursos, que seriam excessivos. Foi sem dúvida nenhuma o primeiro passo para um Serviço Nacional de Saúde, que viria a ser criado no papel quatro anos depois e aperfeiçoado daí em diante.
Ao contrário do que eu pensava, foi possível fazer o caminho inverso, começar com pouco e ir progredindo, de baixo para cima, seguindo o modelo criado empiricamente. É que eu não contava com duas coisas: o estado paupérrimo em termos de cuidados de saúde básicos nos territórios do interior, em necessidade absoluta de ajuda, por um lado, e, por outro, o espírito entusiástico e empreendedor da juventude destacada durante alguns anos para fazer aquele serviço. Foi esse entusiasmo que nos manteve unidos, sem controlo ou vigilância de ninguém, empenhados afinal em fazer aquilo que todos gostávamos de fazer: ser médicos. O trabalho de enfermaria, as consultas, os procedimentos na urgência, as visitas domiciliárias, faziam parte desse trabalho, a que não éramos realmente obrigados mas que víamos bem ser muito necessário por parte de quem nos rodeava. Foi muito gratificante sentir essa necessidade e sermos capazes de nos organizar de modo a satisfazê-la, da melhor maneira que nos foi possível. E foi sem dúvida um privilégio ter podido viver esse tempo, de aventura, ilusão e realização, em que crescemos como médicos e como pessoas. Às vezes perguntam-me se seria bom haver outra vez serviço médico à periferia, e eu respondo: “Não, já não faz falta. Agora o que é preciso é que o Serviço Nacional de Saúde continue, sem perder o entusiasmo que já teve...”.
In Newsletter da Cirurgia C, 2018


terça-feira, 12 de maio de 2020

O FUTURO DA CIRURGIA GERAL


O futuro a Deus pertence, diz o nosso povo, falando do futuro imprevisível, aquele que nos limitamos a aguardar vivendo o dia a dia do modo a que o passado nos conduziu. Mas se soubermos o que foi o passado, como chegámos ao que somos e fazemos hoje, poderemos ter uma ideia do que o futuro vai ser. E se tivermos uma ideia do futuro que gostaríamos de ter, poderemos fazer do nosso dia a dia uma preparação para esse futuro, orientando-o nesse sentido. Deixaremos então de ter um futuro natural e largamente imprevisível, mas antes um futuro com algo de artificial, no sentido de construído segundo um molde do que, de acordo com o que somos agora e como aqui chegámos, pensamos ser o melhor. O que nem sempre será o caso. Tantos exemplos há disso, de futuro forçado numa direcção que depois se mostrou totalmente errada, havendo que arrepiar ou inflectir caminho.
A actividade científica é muitas vezes intensamente empolgante ao conduzir-nos ao futuro, e actualmente faz-nos avançar suficientemente depressa para nos levar a suspeitar que a nossa imaginação não é capaz de abarcar toda a realidade vindoura. Pensamos já que tudo pode vir a acontecer, mesmo contrariando regras estabelecidas que afinal não o são, porque afinal mudam ou se tornam no seu total oposto. O futuro que prevemos através dos resultados da ciência não deve passar de hipótese de trabalho, que virá a ser confirmada ou não pelo grande teste do tempo e pela realidade. Não deve, pois, ser considerado desde logo um objectivo a atingir a qualquer preço mas, simplesmente, uma direcção a ser seguida e susceptível de ser abandonada se se vier a mostrar errada. 
No que respeita à cirurgia geral, a sua maior alteração no fim do século passado e início deste século foi a introdução da via endoscópica – laparoscópica, toracoscópica, retroperitoneoscópica -, uma vez que basicamente todas as grandes intervenções cirúrgicas já eram antes praticadas.  Mas outro aspecto importante na cirurgia geral foi o desenvolvimento da chamada cirurgia fisiológica. Durante séculos a cirurgia foi, pode-se dizer, anatómica, quer dizer, de ressecção, mutiladora, retirando do corpo as partes doentes.  Era uma atitude, diga-se, pouco elaborada (apesar de em muitas situações difícil de executar), de algum modo grosseira, e os cirurgiões não recebiam da sociedade o mesmo respeito que os médicos, apesar de intervirem sobretudo quando estes falhavam. Na cirurgia fisiológica introduzem-se alterações na anatomia com o fim de recuperar uma função fisiológica desaparecida ou diminuída, ou de conseguir uma modificação no funcionamento do organismo. Tornou-se possível pelo conhecimento profundo dos mecanismos fisiológicos em causa, permitindo aos cirurgiões manipular as estruturas anatómicas de modo a reproduzi-los ou alterá-los. Exemplo disto é o tratamento cirúrgico do refluxo gastroesofágico, já mais antigo, e, mais recentemente, a cirurgia da obesidade. A avaliação pormenorizada e sistemática dos resultados das intervenções bariátricas nos doentes operados permitiu perceber a sua influência directa na diabetes mellitus (que não apenas pela redução ponderal), e vai muito provavelmente conduzir a mais conhecimentos na fisiologia do controlo do peso corporal e na fisiopatologia da diabetes, bem como no nosso sistema endócrino e noutras perturbações do nosso metabolismo. É de prever que num futuro próximo doenças como a diabetes possam ser tratadas directamente pelo cirurgião, no que já se chama de cirurgia metabólica, numa evolução ao arrepio da habitual, tratamento cirúrgico enquanto não há tratamento médico.
Não haverá razão no futuro para alterar a história clínica, o interrogatório do doente e a sua observação, os relatos operatórios, o registo de tudo isso e da sua evolução, feitos à boa maneira hipocrática. O suporte informático é muito importante, de modo a que tudo seja facilmente acessível e disponível para os médicos envolvidos no tratamento de cada doente, mesmo em instituições diferentes. Os meios auxiliares de diagnóstico e de intervenção com ajuda de imagem têm-se desenvolvido muito e espera-se que o façam ainda mais, utilizados seja por imagiologistas seja por especialistas doutras áreas, incluindo cirurgiões. Cada vez será mais necessário que os especialistas colaborem uns com os outros, mas não apenas à distância, o façam de maneira estreita, pessoal, à cabeceira do doente (na enfermaria, na sala de endoscopia ou de imagiologia) observando-o em conjunto, discutindo exames e estratégias, pensando colectivamente em soluções. Haverá que inverter a tendência de certos hospitais em que os vários médicos envolvidos no tratamento dos doentes apenas comunicam por escrito, nos velhos processos em papel ou já nos registos informatizados.
A introdução da via cirúrgica endoscópica veio revolucionar a abordagem operatória dos doentes, tornada muito menos traumática e permitindo uma alta muito mais precoce. Não veio alterar os princípios gerais da boa cirurgia, pelos quais se deve continuar a manter um respeito estrito. As operações permaneceram as mesmas, apenas a via de acesso e de trabalho se modificou, havendo os cirurgiões que adquirir o know how da manipulação do instrumental necessário para sua realização, seja directamente seja por robótica. Mas houve regras operatórias tradicionalmente transmitidas e que se consideravam fundamentais nalgumas intervenções que a respectiva execução por via endoscópica veio demonstrar não o serem. Isso constituiu uma lição a aprender por todos nós: há que ter o espírito aberto nessa matéria, podendo a boa cirurgia ser praticada de modos diferentes.
A cirurgia estará cada vez mais dependente da tecnologia, e cabe também aos cirurgiões idealizarem material e instrumentos que lhes permitam realizar mais facilmente as intervenções endoscópicas, e proporem a sua concretização. Toda essa instrumentação cirúrgica acompanhará seguramente o desenvolvimento tecnológico noutras áreas afins da cirurgia, seja no campo do diagnóstico seja da intervenção. Também neste aspecto a colaboração entre todos terá de ser cada vez mais estreita, e o cirurgião geral não deverá abandonar o recurso pessoal a toda essa tecnologia. Em muitos aspectos já o fez mais do que devia, abrindo mão de abordagens instrumentais diagnósticas e terapêuticas que lhe estavam perfeitamente ao alcance, perdendo-se assim a aplicação prática dos seus conhecimentos clínicos e a sua capacidade de execução manual.
O treino na via cirúrgica endoscópica faz hoje parte do treino básico do cirurgião geral, e a capacidade adquirida nessa matéria poderá ser utilizada na realização de múltiplas intervenções em que ela seja aplicável e vantajosa. Mas há limites com certeza, e situações em que a via aberta será desejável ou até mandatória. Os cirurgiões gerais não deverão encarar a via endoscópica como um desafio em que irão ganhando pontos como se de um videojogo se tratasse: deverão saber quando está indicado usá-la e quando não, quando poderão insistir nessa abordagem ou ser da mais elementar prudência desistir. 
Trata-se apenas duma via de abordagem, e não dum objectivo em si. Não faz sentido falar-se numa espécie de especialização em cirurgia endoscópica – laparoscópica, toracoscópica ou retroperitoneoscópica – mas sim saber aplicar essas vias quando necessário, na área de trabalho habitual de cada um. Com o aumento do número de intervenções feitas por via endoscópica, vai-se criando uma dificuldade acrescida no treino da cirurgia aberta, o que não se esperaria vinte anos atrás. Mas a tecnologia em evolução acelerada poderá fornecer meios de treino artificial, com simuladores de gestos cirúrgicos, para a cirurgia aberta, como já existem para a cirurgia endoscópica. Para além do recurso à velha cirurgia em modelos animais.
Dois aspectos relacionados com a cirurgia geral estão hoje muito em voga: a super e subespecialização e a referenciação. Há a ideia de que só faz bem quem faz muito. E é verdade que a prática contribui para a perfeição, mas alcançá-la não depende só do número de vezes que se repetem os mesmos gestos, como parece pensarem os que querem reduzir tudo a números. A rapidez com que se aprende cirurgia é individual, e está dependente, nomeadamente, para além das capacidades de cada um, da sua cultura médica e cirúrgica e da sua experiência prévia e também da concomitante.  Naturalmente, um cirurgião que faça só uma intervenção cirúrgica, para manter a mão terá de a realizar muito mais vezes do que alguém para quem essa intervenção esteja incluída numa actividade cirúrgica intensa e variada.
Da cirurgia geral saíram várias especialidades cirúrgicas, mas isso aconteceu sempre por razões de maior especificidade na evolução da clínica médica relacionada com determinadas patologias, e em procedimentos diagnósticos ou terapêuticos específicos que foram surgindo em relação com essas patologias, a serem realizados pelo próprio cirurgião. Nunca nasceu nenhuma baseada apenas num determinado tipo de cirurgia, e com a justificação do número de intervenções realizadas por unidade de tempo.
É natural que ao longo da sua evolução profissional um cirurgião geral se vá concentrando nalgumas patologias, mais do seu agrado ou para as quais é mais solicitado, e daí surja o que poderemos chamar de superespecialização. Um cirurgião geral, com experiência enquanto tal, com os recursos técnicos e teóricos daí resultantes, que se dedica mais a uma parte do seu campo de trabalho. Já não pode ser aceitável que alguém termine o seu processo de formação básico em cirurgia geral e seja limitado daí em diante a realizar apenas uma determinada intervenção cirúrgica, ou duas ou três, repetindo-as monotonamente para o resto da vida ou até se fartar. Nessas condições nunca chegará a exercer a sua especialidade, terá obtido antes uma subespecialização, sem possibilidade de aplicar na sua actividade diária, translacionalmente, todo o manancial de recursos derivados duma prática cirúrgica mais complexa. Para além disso, é fundamental que cada um tenha possibilidade de mostrar as suas aptidões e capacidades, de modo a poderem ser escolhidos os melhores para uma determinada actividade, e não que a escolha seja prévia a isso. Se o for, muitos de grande qualidade ficarão necessariamente de fora.  
E assim se chega à avaliação, que é a peça fulcral na referenciação, termo intimamente ligado à ideia de qualidade. As carreiras médicas, os internatos médicos e o Serviço Nacional de Saúde conseguiram que nos hospitais de todo o território nacional se pratique boa cirurgia. Nem sempre foi assim, e houve tempo em que quaisquer casos menos simples tinham de ser enviados para dois ou três hospitais do nosso litoral, que eram as referências possíveis na altura. Mas há situações mais complexas e menos frequentes que, necessitando de meios terapêuticos ou de diagnóstico mais sofisticados e mais caros, podem justificar que tais meios possam ser concentrados nalguns centros. Isso não deve significar exclusividade desses centros no tratamento dos doentes, servirá tão somente para tirar mais rendimento, clínico e financeiro, dos investimentos feitos.
Também aqui o monopólio, com desaparecimento de competitividade ou emulação, é um factor de perda de qualidade. Exceptuando alguns casos de patologias raras, e que por isso são pouco frequentes, se quisermos não só concentrar algumas patologias mais complexas num número limitado de centros mas retirá-las por completo e obrigatoriamente de todos os outros, iremos seguramente desaproveitar a capacidade cirúrgica instalada em muitos hospitais periféricos, e levar a médio prazo à sua degradação, por falta de estímulo para os profissionais lá trabalharem. Por outro lado, fica muito caro tratar em centros altamente equipados casos que poderiam ser tratados com êxito noutros centros, contrariando assim uma das razões para a concentração dos meios mais diferenciados.
Com certeza que deve haver centros de referência, tendo essa denominação dois significados cumulativos. Por um lado, centros de elevado grau de diferenciação, mais que os outros, e que por isso lhes servem de referência, fornecendo-lhes exemplo, orientação e eventualmente treino; por outro, centros para onde podem ser referidos casos mais complicados e a precisarem de meios técnicos e humanos mais diferenciados.
Os centros de referência não podem ser designados por nomeação ministerial apenas porque sim: têm de ganhar direito a essa designação. E ela terá de ser baseada numa avaliação dinâmica de todos os centros existentes, em termos quantitativos (número de doentes tratados) e qualitativos (indicações postas, listas de espera, resultados conseguidos, complicações, trabalho científico produzido e a sua qualidade, contributos para o progresso na área, apoio a outros centros). Num país como o nosso, com uma boa cobertura hospitalar em termos de cirurgia geral, a minha proposta seria de se criar, para algumas patologias, uma rede de centros de referência com hospitais afiliados, com planos de actuação comuns, realização de exames, troca de experiências, avaliação conjunta de resultados, treino inter-hospitalar de especialistas e de internos. Para além de se aproveitar o que cada um sabe e tem condições para fazer, sem sobrecarregar um centro de alta diferenciação com casos que não necessitam dele, tornar-se-ia possível aproveitar ao máximo os meios concentrados sem ter de haver concentração dos doentes. Isso permitiria que doentes com patologias mais complexas ou menos frequentes pudessem ser tratados mais perto de casa, em segurança, sem terem de voltar a ser concentrados em dois ou três hospitais do litoral português, desaproveitando a capacidade cirúrgica existente em todo o território nacional.
A relação entre centros de referência e hospitais afiliados teria de ser baseada numa avaliação permanente e eficaz da sua actividade e dos seus resultados, no sentido da sua acreditação ou renomeação. E seria possível o eventual recrutamento para os centros de referência de cirurgiões que se destacassem nos hospitais mais periféricos. Para isso a mobilidade dos profissionais teria de ser a regra: a imobilidade pode ser fonte de acomodamento e de perda de qualidade.
Outra ideia às vezes avançada é em cada centro de referência se reduzir a um mínimo os cirurgiões encarregados da cirurgia em questão, para lhes aumentar a experiência pessoal nessa cirurgia. Sem pôr em questão que se superespecializem alguns cirurgiões, se concentrarmos um tipo de cirurgia em dois ou três cirurgiões e afastarmos dela todos os outros, com que massa crítica ficaremos então? Dois ou três cirurgiões. E a mesma observação se poderá fazer a nível nacional, se houver dois ou três centros com dois ou três cirurgiões cada.  Pelo contrário, se houver mais cirurgiões envolvidos para além desses (e aí outra virtude do tal agrupamento de centro de referência com centros afiliados), a massa crítica será muito maior, assim como a possibilidade de progresso e de transmissão desse progresso. Para além, repito por muito importante, da possibilidade de eventual renovação das equipas por cirurgiões com muita qualidade individual e que doutro modo iriam passar a sua vida profissional desaproveitados. E um país pequeno como o nosso não se pode dar a esse luxo.
Finalmente, um outro aspecto que os centros de referência cirúrgicos deverão contemplar é a multidisciplinaridade, isto é, haver intercâmbio protocolado e colaboração estreita, pessoal, entre o cirurgião geral e as outras áreas profissionais, nomeadamente outras especialidades médicas, envolvidas no tratamento das patologias em causa.  O real êxito dum centro de referência cirúrgico está alicerçado num apoio multidisciplinar, e não só na componente cirúrgica. A abordagem dos doentes, seja diagnóstica, terapêutica ou para seguimento, deve ser feita em conjunto e estar estabelecida nesse sentido. Aqui mais uma vez se reforça a absoluta necessidade dessa colaboração ser feita à cabeceira do doente, na enfermaria ou noutro local, e não unicamente por carta ou registo num sistema informático. 
Mas a multidisciplinaridade desejável não deverá implicar uma miríade de especialistas, ou antes, de subespecialistas, à volta do doente, cada um responsável por uma sua pequenina parte, e muitas vezes sem conseguirem interagir dum modo perfeito por não terem uma boa visão do conjunto, por falta dum conhecimento suficientemente amplo, dando corpo ao ditado popular de que todos juntos não valem um. Multidisciplinaridade, sim, mas envolvendo especialistas com preparação particular em determinadas áreas da sua especialidade sem, no entanto, ignorarem ou porem de parte tudo o que não seja isso.

Terminando, a rede de referenciação cirúrgica como a imagino e a descrevo atrás permitiria utilizar os meios disponíveis, humanos e tecnológicos, da melhor maneira: tratar com poucos meios os casos mais simples, reservar os meios mais diferenciados para os casos que deles verdadeiramente necessitem. Criando uma hierarquização de competências e meios em função das necessidades dos doentes, com a possibilidade de constituição dum “pool” de cirurgiões interessados capazes de se candidatarem a ser os melhores numa determinada área. 
In O futuro da cirurgia geral, ed. Sociedade Portuguesa de Cirurgia, 2015