sexta-feira, 6 de novembro de 2020

 O ELEFANTE NA LOJA DE LOIÇA OU OS HOSPITAIS EM COIMBRA

 

Há nove anos Coimbra tinha dois Hospitais Gerais Centrais, o HUC e o CHC, que eram também os Hospitais Centrais referência da Região Centro. Estabelecido que por cada 800.000 utentes deve haver um Hospital Central, a nossa Região terá de ter pelo menos dois, eventualmente três, nos seus 2.300.000 habitantes. Sediados que eram dois em Coimbra, por todo o know-how em Saúde concentrado na cidade, na sua Universidade – a segunda maior do país – e nas múltiplas instituições ligadas ao ensino e à investigação naquela área, que a tornam incomparável na Região Centro.

Corria tudo bem quando o governo, sem qualquer razão aparente ou, ainda menos, estudo feito, resolveu fundir os dois Hospitais Centrais num centro hospitalar, o CHUC.  Que não saiu realmente um centro hospitalar, mas sim um hospital único dividido por vários edifícios separados por quilómetros. Num momento inicial ficou o maior hospital do país, mas rapidamente começou a diminuir de tamanho, quando se começaram a acumular serviços num edifício, o do HUC, com a sua saída dos outros. O Hospital dos Covões, esvaziado de várias especialidades, continuou, no entanto, a funcionar como hospital, integrando mesmo alguns centros de referência do CHUC entretanto criados. Mas é claro que o efeito negativo da ausência de apoio das várias especialidades deslocalizadas para o outro lado do rio, e aí acumuladas com manifesta redução do seu rendimento, se foi tornando por demais evidente, e por isso se esperava, logicamente, que a situação fosse revertida, para bem dos dois Hospitais e dos respectivos doentes.

Eis senão quando aparecem duas administrações do CHUC, formadas por nomeados para o cargo alguns não conhecendo nenhum dos hospitais envolvidos, e a maioria não conhecendo de todo o Hospital dos Covões, ao ponto de nunca lá terem ido (!), cujo objectivo depressa se revelou: reduzir o CHUC ao HUC. E, assim, o Hospital dos Covões foi rapidamente sendo esvaziado dos profissionais e dos Serviços que ainda tinha, para se irem juntar no HUC com os que já lá estavam. Para, depois disso, fazer das suas instalações “qualquer coisa”… que até pudesse eventualmente vir a satisfazer a ânsia de protagonismo profissional dalgum elemento do CHUC…

Mas rapidamente se tornou evidente que o HUC não se bastava a si próprio,  e que, por mais profissionais e doentes que lá se quisessem meter, a sua capacidade de resposta não era infinita, e estava há muito ultrapassada, com a espera por atendimento e as listas de espera para tudo e mais alguma coisa a aumentarem a olhos vistos. Entrou-se, então, na fase de saber o que fazer “daquilo” (o Hospital dos Covões, um dos Hospitais Gerais Centrais da Região Centro e de Coimbra), para que pudesse “dar uma mãozinha” ao HUC.  Ser Hospital é que não… porque, para esta administração, Hospital é só um, o HUC e mais nenhum…

Nesta fase apareceu a pandemia de covid-19, e o Hospital dos Covões foi transformado no hospital de referência para a epidemia. Com tudo a correr bem, cuidados intensivos respiratórios e coronários, imagiologia (TAC e RMN), medicina interna, pneumologia, infecciologia, nefrologia, cardiologia, laboratório, hemodiálise, camas de internamento de novo utilizadas. Passada a primeira onda, e não esperando pela segunda, nova tentativa de “reconversão” do Hospital em “qualquer coisa”. E surgiu uma amálgama instável de consultas e de valências, desgarradas, sem relação com os serviços de internamento, a maior parte deles reduzidos ao edifício do HUC, a oito quilómetros de distância. E introduzidas e alteradas numa verdadeira “dança”, mudando quase a cada semana, até de localização no próprio edifício do Hospital (!), e de profissionais a elas adstritos, em negação absoluta do que deve ser uma equipa de saúde, ou para a destruir…

Enfermarias desocupadas, camas vazias. Sem Pneumologia, sem Infecciologia. Laboratório de Hemodinâmica a funcionar, enfermaria de Cardiologia fechada, vazia de camas, Unidade de Cuidados Intensivos Coronários desactivada. Hemodiálise aberta, Serviço de Nefrologia fechado. Serviço de Urgência aberto, mas apenas com Medicina Interna, doentes cirúrgicos de urgência a ser operados no HUC. Salas operatórias fechadas no bloco central, salas apenas para cirurgia de ambulatório, num bloco operatório próprio, que é único no CHUC, realmente.  Projecto de cirurgia digestiva diferenciada (cirurgia de obesidade), mas a ser desenvolvido onde deixou de haver Gastroenterologia e endoscopia digestiva (“concentradas” no HUC). Com os Cuidados Intensivos polivalentes a planear ser encerrados. E, no meio disto tudo, de novo hospital de referência para a covid-19.

É evidente que esta manta anárquica e inconsistente de retalhos, à medida do que “o outro” necessite, não é um Hospital, nem se reveste de qualquer eficácia, e muito menos eficiência. É um gasto despropositado de esforço dos profissionais envolvidos e de dinheiro dos contribuintes, incluindo os utentes do Hospital dos Covões, que tanta falta sentem dele e tanto se têm esforçado, em manifestações de rua (cinco), grupos no Facebook (três), petições à Assembleia da República (duas), para que ele volte a ser o que era, nove anos de sofrimento na saúde depois. Isto a que se assiste é um desnorte total na utilização do que quiseram que deixasse de ser um Hospital, e que se mostrou à saciedade que tem de ser. É o resultado duma intervenção desajeitada na Saúde da cidade de Coimbra e da sua Região, qual elefante irrompendo numa loja de loiça e partindo tudo, com quase desmantelamento dum Hospital e uma agressão violenta ao outro, assoberbado com trabalho, atafulhado de doentes e de profissionais mas sem possibilidade de dar mais e melhor resposta, e com redução da sua capacidade de investigação e de ensino, hospital universitário que tem de ser. Aliás, esse bloqueio de um por excesso de solicitação, e a redução de meios do outro por esvaziamento, convergiram já na saída de muitos profissionais, sobretudo de alguns com mais vontade de realização profissional numa instituição que o permita e o estimule.

Um Hospital Geral Central apenas não chega, já foi reconhecido, mas já se sabia. Restitua-se a autonomia ao Hospital dos Covões.  Tão simples como isso. Simples, rápido e barato: o Hospital só precisa duma administração própria e que os profissionais que foram levados a sair dele voltem. E voltarão sem dúvida, para um projecto que sempre foi aliciante para todos, para os profissionais e para os doentes. Voltarão quando a acção do elefante deixar a loja em paz.

sábado, 3 de outubro de 2020

 A RESPONSABILIZAÇÃO DOS GESTORES PÚBLICOS DA SAÚDE

 

A responsabilização dos gestores públicos da Saúde (ou dos gestores da Saúde pública) tem de ser uma realidade iniludível, e não apenas no papel ou no campo teórico.

"O direito constitucional à saúde está intrinsecamente associado ao direito elementar à vida, ocorrendo a sua violação quando este tenha sido, ou esteja a ser, colocado em risco por força de uma conduta omissiva ou, pior ainda, de uma actuação por parte do Estado, e de quem nele detém poderes e competências de decisão e gestão na área da saúde, que propicie ou potencie aquele risco, ou de que decorra mesmo um dano concreto." (Ana Costa Almeida, O direito à Saúde)

Portanto, quando a saúde dos cidadãos do país ou duma sua região é posta em causa, ao não lhe serem dadas as melhores condições ou, pior ainda, ao retirar-lhe essas condições, com manifesto desprezo pelos utentes e pelos profissionais de saúde que protestam veementemente por isso, os gestores de saúde implicados têm de ser responsabilizados. A lei obriga a isso. E o bom senso. E a Saúde, bem supremo, perdida!

Quando funcionários postos a gerir um Hospital onde nunca trabalharam e que não conhecem, tomam medidas volúveis que levam ao seu desmantelamento como Hospital, ignorando acintosamente toda a sua capacidade instalada e usada, com tanta qualidade que é defendido com unhas e dentes por todos os seus utentes e profissionais, substituindo-o por algo que é apresentado como uma trapalhada, uma mão cheia de nada, ainda por cima com gasto de mais de quatro milhões de euros, têm de ser responsabilizados. Desde logo por todas as pessoas que sofrem com isso no seu direito à saúde. E, se esse aspecto afinal interessar a quem governa, por quem governa, e que também é responsável. E pela Lei, se se tiver de chegar a isso, por parte das populações lesadas.

Como disse há pouco tempo um antigo ministro da saúde, só um cego não consegue ver que a saúde em Coimbra está com problemas. Problemas derivados da fusão hospitalar levada a cabo em nove anos. Mas pior do que cegos são os que não querem ver isso, são responsáveis por isso, e continuam. Agravando os problemas.

Já se percebeu que o HUC não se basta a si próprio enquanto Hospital, e necessita do apoio externo doutro, ou doutros. E mesmo com o apoio que está a ter vive com esforço, com a Urgência largamente superlotada, com muita dificuldade no atendimento, as listas de espera para tudo a aumentar, uma sobrecarga de trabalho de rotina que, para além de, naturalmente, piorar os resultados, dificulta sobremaneira a diferenciação e a investigação que são próprias dum Hospital Central, o que vai afastando dele formandos e profissionais com esse interesse e capacidade. Mas por isto é que a pretensão de quem gere o CHUC de conseguir o encerramento do Hospital dos Covões não vingou: faz falta. E também porque essa falta é por demais sentida pelos seus utentes, comparando a assistência em saúde que têm agora com a que tinham quando na realidade havia dois Hospitais Gerais Centrais em Coimbra e não apenas um com um acrescento do outro lado do rio.

Pois é claro que os problemas da Saúde em Coimbra – provocando manifestações de rua, declarações de políticos, Petição à Assembleia da República – derivam da fusão dos dois Hospitais Gerais Centrais de Coimbra, com desmantelamento dum deles, acabando este embora por ter de ser apenas parcial, e já se entendeu porquê… A dita fusão, e a maneira como foi feita e está a ser gerida, constitui uma desqualificação dos cuidados hospitalares em Coimbra e na Região Centro, e do acesso dos seus utentes a eles, com deterioração da assistência que lhes é fornecida nessa área, configurando isto “uma violação do seu direito à Saúde, já que posto em risco por força de uma conduta omissiva ou, pior ainda, de uma actuação por parte do Estado, e de quem nele detém poderes e competências de decisão e gestão na área da saúde, que propicia ou potencia aquele risco, e de que decorre mesmo um dano concreto”.

Mas mais extraordinária ainda, negativamente, é a atitude dos gestores da saúde em Coimbra de quererem colocar um centro de “envelhecimento activo” no Hospital dos Covões, em vez de o reactivarem como Hospital Geral Central, o que é obvia e publicamente o indicado! Se entendem necessário e prioritário, nos tempos que correm,  criar um centro para ensinar os velhos a envelhecer activamente, e a evitar na medida do possível o seu internamento (o envelhecimento activo ou ageing é isso), e se para tal precisam dum edifício, têm o antigo Hospital Pediátrico, onde podem gastar os quatro milhões da União Europeia com o fim a que são destinados e salvarem-no da ruína. No centro da cidade, e muito perto do HUC e da Faculdade de Medicina, esta onde dizem que vão construir com aqueles mesmos milhões, ou outros, um edifício para fazer estudos e investigação naquela área.

Vejamos, aquela verba não foi atribuída para fechar um Hospital! E escusam de gastar dinheiro no Hospital dos Covões, como Hospital não precisa! Além de que substituir um Hospital Geral Central totalmente e bem equipado por um centro de treino para velhos evitarem o internamento hospitalar, deixando o outro Hospital Central de Coimbra completamente esgotado com trabalho e assoberbado com doentes, é uma verdadeira inconsciência! De que alguém tem de assumir a responsabilidade! Para o presente e para o futuro! E que, mais uma vez, reforça a razão do pedido feito na Petição: “autonomia para o Hospital dos Covões, porque o acesso à saúde é um direito e um dever”.

Os gestores públicos da Saúde, ou os gestores da Saúde pública, não podem ficar impunes por actos ou omissões lesivos da Saúde, têm se ser responsabilizados por eles! A Saúde das populações a isso tem de obrigar. Para a sua salvaguarda.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

                     MAIS UMA… ATÉ QUANDO?...


 Mais uma manifestação de rua pela Saúde em Coimbra e na Região Centro, defendendo a autonomia do Hospital dos Covões e a manutenção das suas funções como Hospital Geral Central. Desta vez uma marcha da Praça da Canção até à Praça 8 de Maio, unindo as margens que alguns teimam que o Mondego separe em Coimbra. Uma marcha pelo Hospital construído na margem esquerda, que trouxe a esta cidade e à região uma capacidade e uma notoriedade em Saúde nunca tidas antes, enchendo ao mesmo tempo o coração dos seus utentes, que por ele se continuam a bater, pelos bons resultados e o humanismo no trato. O que fez com que a sua morte anunciada se venha arrastando tanto no tempo, tendo os executores contratados tanta dificuldade em inventar uma desculpa qualquer para o seu desaparecimento enquanto Hospital. Ou, então, dito de forma simples, porque faz uma falta fundamental à Saúde em Coimbra e na Região Centro.

Tantas manifestações populares, nas ruas (já é a quarta) e no Facebook, com uma página dedicada que vai com mais de 35.000 membros; uma petição pública à Assembleia da República com 4500 assinaturas (porque 4000 é o número mínimo para ser aceite, fossem necessárias mais e mais seriam), em apreciação pela Comissão Parlamentar de Saúde e posterior votação em plenário (como já houve duas outras anteriormente); declarações públicas, orais e por escrito, repetidas, das várias forças políticas na cidade, incluindo do partido no governo, bem como de Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, isoladas e em associação; interpelações à ministra da saúde sobre o tema por deputados de partidos da oposição, incluindo componentes da Comissão de Saúde. Tudo no mesmo sentido. Tudo em vão até agora.

Poder-se-á compreender um dia esta indiferença absoluta do ministério da saúde e do governo?! Porque não se trata duma cidade que quer ter mais um pavilhão gimnodesportivo e o governo não pode ceder a essas exigências!… Ou dum problema laboral numa empresa cuja responsabilidade é apenas da gerência… Trata-se dum Hospital Geral Central existente e totalmente equipado e funcionante desde 1973, com provas dadas e qualidade reconhecida, que tratou com eficiência milhares de doentes e formou milhares de profissionais! E que querem simplesmente desmantelar! Onde se tratou a primeira onda de Covid-19 em Coimbra… e agora se desactiva antes que a segunda chegue… Como se não fizesse falta, e pudesse ser substituído pelos vários hospitais privados, franchisings de várias marcas, entretanto construídos em Coimbra!!

A par disto assiste-se ao outro Hospital Central em Coimbra, o Hospital da Universidade de Coimbra, onde se concentrou tudo e todos, completamente assoberbado, bloqueado no acesso rodoviário e no estacionamento, mas sobretudo no trabalho que tem e na quantidade de pessoas que por ele circulam, com a resposta cada vez mais difícil, com aumento enorme das listas de espera para consultas, exames,  tratamentos médicos e cirurgias, apesar da exaustão de quem lá está e se esforça. Com o excesso acumulado de trabalho de rotina, sai, naturalmente, penalizado tudo o resto, a diferenciação e a investigação, que deveriam ser fulcrais num hospital universitário e de ensino pré e pós-graduado. E vai-se assistindo a uma debandada de profissionais, mostrando outros pouca apetência para os substituir, seja como formadores seja como formandos.

Quer dizer, duma fusão de dois Hospitais, feita sem qualquer necessidade ou indicação, e sem nenhum plano, resultou a destruição de um e a deterioração do funcionamento do outro, com afastamento de profissionais, de formandos e de doentes. E que levou a uma verdadeira crise no SNS hospitalar em Coimbra, com repercussão na Região Centro. Com manifestações populares por causa disso, exigindo o que tinham anteriormente a essa fusão. Isto é evidente para todos, menos, ao que parece, para os responsáveis pela gestão da saúde e pela situação criada. Que teimosamente insistem nela. E que acham que falar no passado não adianta… quando o penoso presente resulta de em apenas nove anos terem destruído a riqueza duma herança de quarenta e cinco!... 

Se alguém pensa que a democracia consiste em votar de quatro em quatro anos, está enganado. Se acharem que de quatro em quatro anos se vota numa ditadura para esses anos, estão enganados. Quem governa tem de estar constantemente atento às necessidades das pessoas, aos seus anseios, às suas dificuldades, e tomar atempadamente as medidas necessárias. Com clareza e limpidez. Em democracia, se os políticos desprezarem o povo, o povo rapidamente se afastará deles. Como dizia Mário Soares, o povo tem direito à indignação. E é indignação o que em Coimbra se tem gritado alto e bom som, sobre uma fusão que desmantelou um Hospital público e colocou outro em dificuldades. Alguns políticos há muito que a ouviram, outros fazem que não a ouvem. Veremos até quando.

Essa indignação tem sido bem transmitida pelos meios de comunicação locais, jornais e rádios, que têm desempenhado o seu papel de informar, de modo empenhado e profissional, sobre o que se passa na Saúde hospitalar em Coimbra. Mas a que os meios de comunicação social nacional não querem dar relevo, e nem sequer noticiam, como se o que se passa nos Hospitais do SNS em Coimbra fosse algo que pouco afecta ou interessa o país. Ou foi o que lhes disseram. Claro que se fosse um médico acusado de qualquer coisa isso seria notícia em todos os noticiários durante um dia ou dois, pelo menos! Dizia Joseph Pulitzer, extraordinário jornalista americano falecido em 1911 e cujo nome foi dado a um prémio mundial de grande prestígio para o jornalismo de qualidade: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”. Esta profecia foi feita há mais de 110 anos… Felizmente que há jornalistas que lhe vão resistindo.

sábado, 12 de setembro de 2020

COIMBRA E A ESTREITEZA DE VISTAS DO MINISTÉRIO DA SAÚDE

Quem faz as instituições são as pessoas que lá trabalham, sobretudo quem as saiba dirigir. Se conseguirem planear o futuro desejado com base no presente que vivem, tendo em conta o que foi o passado. E com o golpe de asa necessário para perceber um erro e retornar ao rumo certo, em vez de teimosamente marcarem passo no caminho errado. Esta é a grande diferença entre um líder e um chefe, e felizes as instituições que são lideradas e não apenas chefiadas.
Os Hospitais Gerais Centrais da Região Centro, centralizados em Coimbra (como os do Norte o estão no Porto e os do Sul em Lisboa), foram fundidos, em 2011. Sem qualquer necessidade antes detectada, ou, ainda menos, solicitada, ou algum plano prévio de funcionamento, foram fundidos por uma lei num centro hospitalar. O que, de início, até se poderia aceitar, os dois hospitais a funcionarem sob uma mesma administração, com um orçamento igual à soma dos orçamentos individuais, embora se pudesse à partida suspeitar de muita dificuldade para administrar uma estrutura tao grande e complexa.
Mas foi, desde logo, cometido um erro: não se criou, na verdade, um centro hospitalar (isto é, vários hospitais com autonomia, com direcções clínicas próprias, unidos por uma rede administrativa), mas sim um hospital único, muito grande, espalhado por vários edifícios separados por quilómetros. E, na sequência disso, e sob o lema “cada especialidade, um Serviço”, começaram a dividir-se Serviços do agora CHUC pelos edifícios do HUC e do Hospital dos Covões. Ou melhor, a concentrar Serviços no edifício do HUC, deixando o outro progressivamente mais desprotegido em termos das várias especialidades que ia deixando de ter. Cada vez com menos pessoal e menos doentes, com muito material a ser desviado para o edifico do HUC, embora mantendo as tecnologias lá instaladas ao longo dos anos e que são difíceis de desmontar e transportar, até porque não há espaço para elas no HUC e os doentes deste têm de lá ir fazer exames de que necessitam, para além de ser operados no bloco de ambulatório, que no HUC não existe.
E assim se chegou ao estado actual: o Hospital dos Covões quase desactivado como hospital, funcionando apenas como uma espécie de extensão do HUC. De dois Hospitais Gerais de referência que havia em Coimbra e na Região Centro, passou a haver só um. O orçamento para dois é usado apenas num, onde os doentes se acumulam e esperam e os profissionais se acotovelam e exasperam, já que passaram a ser em maior número mas as condições e espaço de trabalho são os mesmos que eram. As listas de espera para consulta, exames, tratamentos, crescem, a possibilidade de ensino prático dos alunos foi drasticamente reduzida, tal como a capacidade de formação de novos especialistas. Num momento em que o governo parece querer apostar em aumentar o número de médicos, a diminuição da capacidade de os especializar é inesperada, para dizer o menos...
O que é que pode não se compreender disto?! Deste processo que levou ao encerramento como hospital dum Hospital diferenciado em Coimbra? Com repercussão negativa evidente e esperada a nível assistencial, no ensino, na formação pós-graduada, na investigação. E expondo o outro a um forçado e marcado aumento de procura, com a sua sobrelotação e o esgotamento da resposta hospitalar e dos seus profissionais.
É tudo mais que evidente, e é motivo para o desassossego e sofrimento das populações, privadas dum hospital e condenadas ao restante. Protestam com veemência, em manifestações de rua, buzinões de automóveis, nas redes sociais (com um grupo que já ultrapassou os trinta mil membros), numa Petição à Assembleia da República com 4.500 assinaturas (porque eram precisas apenas 4.000, se fossem 10.000 ou mais também as teria!). E do mesmo modo os profissionais se manifestam, expondo as consequências, invocando as razões, apontando soluções. Com eco nas forças políticas locais, nas Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia de Coimbra e da região, nalguns deputados por Coimbra. Todos a querer uma mudança, tudo em vão perante o ministério da saúde. Dizia John F. Kennedy: “Quando não aceitamos uma mudança inevitável de forma pacífica, arriscamo-nos a tê-la de forma violenta.”.
Nunca Coimbra, orgulhosa de António Arnaut e do SNS, pensou ter problemas deste calibre na sua Saúde hospitalar pública! Com tantas dificuldades, no preciso momento em que instituições hospitalares privadas, franchisings de marcas de hospitais e outras, se multiplicam localmente! Mas qual a solução? É óbvia, e corresponde, aliás, ao tema da Petição entregue: reverter a fusão feita, devolver a autonomia ao Hospital dos Covões, com as funções que tinha enquanto Hospital Geral Central. Um dos dois Hospitais Gerais Centrais de que os dois milhões e trezentos mil habitantes da Região Centro necessitam que haja.
Os encarregados pelo ministério da saúde da gestão do CHUC pensam de maneira contrária, e insistem na macrocefalia do Hospital da Universidade, nele concentrando tudo e a ele atraindo todos (para mais ainda com os problemas conhecidos no acesso rodoviário e no estacionamento), ficando as instalações do outro Hospital como uma espécie de armazém de excedentes. Ou, parecendo gorada a tentativa de encerramento, propõem lá ser colocadas algumas unidades funcionais, partes de Serviços, ou consultas externas para as quais não se encontre espaço no edifício do HUC. Sem esquecer o inevitavelmente citado Bloco de Cirurgia em Ambulatório, este pela simples razão de ter sido sempre um exclusivo do Hospital dos Covões, já que o HUC não tem nenhum. Ao mesmo tempo que fecham os cuidados intensivos, coronários e gerais, inviabilizando assim que uma nova pandemia, ou esta mesma, possam continuar a ser tratadas nos Covões, e contribuindo para forçar, desse modo, que uma nova maternidade tenha de ser encavalitada no HUC.
Um hospital tem de ter os Serviços necessários ao seu funcionamento, isto é (para quem lhe custe entender isto), ao tratamento dos seus doentes, dos doentes que a ele acorram ou sejam enviados. Não se compadece com os doentes terem de estar à espera de médicos vindos doutro lado, ou serem sistematicamente enviados a outro lado, sem possibilidade de serem observados e o seu caso discutido presencialmente pelos vários especialistas eventualmente necessários. Qualquer médico percebe isto, embora se admita que quem não o seja lhe possa dar pouca importância.
Portanto, cada hospital terá necessariamente muitos Serviços idênticos aos outros. O que é, na realidade, uma mais valia, pela diversidade que proporciona à medicina praticada e aos médicos, com troca de opiniões, cotejo de resultados, comparação de experiências, que é o que conduz ao progresso. O monolitismo, e o monopólio, são causas de estiolamento repetitivo, o que na medicina, sempre em mudança, é trágico, para a saúde e para os doentes.
O que se pretende, pois, são dois Hospitais Gerais, trabalhando lado a lado, com emulação, complementares um dos outro no sentido de um poder ter uma ou outra área específica que o outro não tenha, mas sobretudo em termos de cada um ser uma alternativa ao outro, à disposição da escolha de quem deles necessite. A devolução da autonomia ao Hospital dos Covões poderá, nesta altura, permitir o estabelecimento duma forma inovadora de gestão, mais próxima da população e em interligação estreita com outras estruturas de saúde, como cuidados de saúde primários e outros hospitais, como já foi esboçado anteriormente, no que se chamava Unidade de Saúde Coimbra Sul. Uma forma de gestão diferente, e que poderia até ser comparada, em termos de resultados clínicos, sociais e económicos, com outros hospitais do mesmo nível geridos doutra maneira, mais elitista e isolada da comunidade.
De qualquer maneira, é muito urgente que a situação da Saúde hospitalar em Coimbra seja resolvida. Alguém tem de a resolver. São pessoas que resolvem as situações, não são as instituições. Que dependem das pessoas. Sobretudo das que as saibam dirigir.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

OS HOSPITAIS DE COIMBRA E A COISA PÚBLICA

Há dias, na página no Facebook do movimento Pela Saúde em Coimbra e na Região Centro (que defende a autonomia do Hospital dos Covões e a manutenção das suas funções como Hospital Geral Central), um conhecido e influente membro do partido na altura, e agora, no governo, e um dos seus fundadores, dizia da influência decisiva do Dr. Fernando Vale na construção, nos anos 80 do século passado, do edifício actual do Hospital da Universidade de Coimbra. Vimos confirmado como as coisas podem funcionar na coisa pública (res publica). Nesse caso, ainda bem.
Ficou dito que o Dr. Fernando Vale insistiu pessoalmente, com premência, para que o primeiro-ministro Mário Soares viesse rapidamente a Coimbra falar com ele, ao que este acedeu, mesmo sem saber a razão. Ao chegar, foi por ele levado de imediato ao velho edifício do HUC, onde foi confrontado com as péssimas condições existentes, e instado para que fosse encontrada uma solução com urgência, a bem dos doentes e dos profissionais. Como é contado, essa insistência do médico amigo e correligionário, tão respeitado em todos os quadrantes políticos nacionais, não caiu em cesto roto. E, logo no caminho de regresso a Lisboa, Mário Soares pensou no modo de desviar o dinheiro necessário doutro fim a que estava destinado.
Terá faltado referir que esse pedido premente do Dr. Fernando Vale provavelmente tenha resultado duma sua visita ao Hospital dos Covões, onde um filho seu trabalhava como cirurgião – e de muita qualidade -, e assim tenha podido fazer um paralelo entre os dois Hospitais. O Hospital dos Covões tinha das melhores condições possíveis à época como hospital, e nesse campo a sua comparação com o HUC era verdadeiramente penosa para este último! Uma diferença abissal, que chocava, ainda mais quem tivesse animosidade contra aquela instituição por ter sido obra do Prof. Bissaya Barreto, confundindo o homem com a sua obra. Porque muitos havia que odiavam Bissaya Barreto, por várias razões e também, ao que parece, por ter sido ele a fazer Coimbra dar um salto de relevo em matéria de Saúde, e não eles…
Pode-se considerar, assim, que foi também o aparecimento em Coimbra doutro Hospital para além do Hospital da Universidade, o Hospital dos Covões, e do Centro Hospitalar de Coimbra que ele integrava, de muita qualidade e óptimas condições logísticas, que levou, indirectamente, à construção dum edifício novo para o HUC. O que teve de ser levado a cabo muito rapidamente, para aproveitar o dinheiro conseguido pela intervenção pessoal, acima relatada, sobre o primeiro-ministro do momento. Essa pressa obrigou a usar-se um projecto existente já com vinte anos, o que conduziu a uma construção hospitalar desajustada, em dimensões e disposição das instalações, ao que nessa época já se defendia em termos de hospitais, mas permitiu, de qualquer maneira, um progresso enorme para os seus profissionais e utentes.
E os dois Hospitais continuaram a coexistir durante mais trinta anos, para benefício de Coimbra e da Região Centro, projectando a cidade nacional e internacionalmente na área da Saúde. Merecendo por isso a designação de “capital da Saúde”. É perfeitamente clara a importância de haver dois Hospitais Gerais Centrais em Coimbra, chamando à cidade profissionais de saúde, alunos, formandos, investigadores, escolas, doentes, e é por isso muito evidente que manter os dois, no caso, manter o Hospital dos Covões, é uma verdadeira causa pública. Aliás bem compreendida pelas populações, que se manifestam repetidamente nesse sentido, representadas pela quase totalidade das forças políticas locais.
Mas essa causa não é de todos, admitamos: animosidades antigas não morrem, e o ressentimento contra quem levou a cidade a expandir-se pela Saúde, fazendo-a crescer para a periferia no “outro lado do rio”, e projectando-a ao mesmo tempo para fora de portas, mantem-se, reflectindo-se na sua obra. São os defensores duma Coimbra pequenina, enquistada e encolhida sobre a “sua” universidade, centrada nesse centro antigo e com receio de que ele se afaste para mais longe, dum lado e doutro do rio, levado pelo crescimento.
É Coimbra que tem de decidir o que quer. E quem quer. Mas já vimos como se passam as coisas na coisa pública, mesmo que numa causa que é entusiasticamente de tantos. O que vale muitas das vezes é a intervenção duma pessoa, com carisma, pessoal ou político, ou poder, e que leva a uma decisão pelas forças instaladas na governação, fazendo-as ver quase à força a razão que lhe assiste, e o caminho correcto a seguir. Sem mais delongas e hesitações. Nos Hospitais de Coimbra já houve dois exemplos, aqui citados. Teremos de esperar por outro, para que a Saúde em Coimbra e na Região Centro retome o caminho devido?...
In Diário As Beiras, 10 de Setembro 2020

domingo, 30 de agosto de 2020

CONFIANÇA. É CURIOSO…

Num inquérito feito no ano passado, os portugueses colocaram os médicos em segundo lugar na confiança que têm nos vários profissionais.  Em primeiro lugar ficaram os bombeiros, e em terceiro os professores. Em último ficaram os políticos. Quer dizer, os profissionais em que a população portuguesa mais confia são os bombeiros, os médicos e os professores. E aqueles em que menos confia são os políticos.
E é interessante saber que no Brasil a maior confiança é também atribuída aos mesmos profissionais, embora a ordem seja outra: primeiro os médicos, depois os professores e em terceiro os bombeiros. 
Por isso não deixa de ser curioso que todos os médicos tenham de ter conhecimento, e estar avisados, desta graça: “se correr tudo bem com o doente, foi graças a Deus; se correr mal, foi culpa do médico…”.
O que, curiosamente também, não deixa de acontecer do mesmo modo com os bombeiros… e com os professores…
Mas os médicos, cientes disso, conseguem viver com isso. Conseguem trabalhar, esforçar-se para que tudo corra bem, procurar que haja as melhores condições para que os seus doentes sejam tratados da melhor maneira possível. Fazem-no como profissionais que são, não para serem votados no topo da lista das pessoas em quem o povo mais confia. Mas a verdade é que há muita gente que reage para com os médicos de modo diferente do daquela graça, e isso é com certeza bom, recompensador e estimulante. E por isso lá vão para o cimo da tal lista…
Houve um mau resultado num lar de idosos com más condições sanitárias durante uma pandemia, contra a qual o país lutava, e luta. De quem é a culpa? Dos médicos, pois de quem mais?!…
Nada de novo. Mas não deixa de ser curioso.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

EM COIMBRA, DOS DOIS LADOS DO MONDEGO

As cidades crescem pela periferia, não pelo centro. E quem não sai do centro arrisca-se a perder a real perspectiva da cidade, deixando de a conhecer. E quem não conhece uma cidade não pode fazer nada por ela.
À medida que as cidades crescem, o seu centro, dia a dia mais velho e que outrora acumulava tudo, torna-se cada vez de mais difícil acesso, quer de dentro quer de fora. Há, por isso, que descongestionar a cidade, retirando-lhe toda a pressão na sua parte central, de modo a que ela possa continuar a ser habitada com qualidade, sem poluição ambiental, quer dos gases emanados pelos motores quer do ruído, e com possibilidade de nela se circular com facilidade, a pé ou de carro.
Coimbra não é excepção. A partir do burgo inicial, no lado direito do Mondego, foi-se espraiando, alargando, passou para a outra margem, englobando e ultrapassando largamente os conventos outrora na sua periferia do lado de lá do rio. A própria Universidade, ao crescer fê-lo para fora de muros do burgo, com a construção dos colégios no que foi depois chamado Rua da Sofia. Não fôra a cedência que o rei lhe fez do paço real, teria provavelmente crescido por essa periferia, sem o fazer no centro da cidade, com a destruição da alta coimbrã. E se não tivesse ficado acantonada nessa alta destruída e ocupada, sem possibilidade de crescer, poderíamos ter hoje, para além do paço das Escolas, um verdadeiro campus universitário (do lado direito ou esquerdo do Mondego…), e não vários polos e edifícios espalhados pela cidade.
Na Saúde, Coimbra teve a sorte de ter tido há 60 anos um homem de iniciativa e visão chamado Bissaya Barreto, que conseguiu que a assistência médica hospitalar na cidade também se espraiasse para fora do único hospital então existente, o Hospital da Universidade, no centro urbano, e para a periferia da cidade, para a outra margem, numa localização de fácil acesso, quer de dentro quer de fora da cidade, e onde tivesse espaço para crescer, sem ter de destruir nada e sem provocar um caos urbanístico e rodoviário. Foi o segundo Hospital de Coimbra, que ele chamou Hospital da Cidade. Integrado no Centro Hospitalar de Coimbra, juntamente com uma Maternidade (Bissaya Barreto) e o Hospital Pediátrico. Coimbra passou a ter, portanto, dois Hospitais Gerais Centrais.
Na hierarquização de recursos humanos e tecnológicos, os Hospitais Centrais são o topo, referência final e fim de linha para os outros, ao mesmo tempo que acolhem todos os doentes que a eles se queiram dirigir directamente. Está calculado que cada milhão de utentes necessita de ter acesso a um hospital desses. A Região Centro tem dois milhões e trezentos mil habitantes, deverá ter pelo menos dois Hospitais Gerais Centrais. E durante um período de 40 anos teve-os, em Coimbra, um de cada lado do rio, trabalhando paralelamente, fornecendo serviços de muita qualidade, complementarmente, com Serviços únicos em patologias ou situações mais raras, ou como possibilidade de segunda opinião na grande maioria, numa base de emulação e competitividade que levou a um desenvolvimento nunca visto na Saúde da cidade e da Região.
Coimbra, maior cidade da Região Centro, sede da segunda maior Universidade do país, com uma Faculdade de Medicina grande, múltiplas Escolas e Institutos de Investigação e, por isso, cheia de profissionais, professores, alunos, formadores, formandos, internos, doutorandos, investigadores, na área da Saúde, bem como, naturalmente, muitos doentes. Com todas as condições para dar o mais eficaz e mais completo uso a tudo isso, quer em termos de assistência médica, quer no ensino e na investigação. Com dois hospitais centrais na Região Centro centralizados nela, como no Norte o estão no Porto e no Sul em Lisboa.  Foi um período em que foi capital da Saúde, e em que tudo correu bem nesse campo.
Em 2010 a Comissão Europeia sugeriu a redução do número de hospitais em Portugal, por razões economicistas: o que gasta dinheiro na saúde é tratar doentes, e menos serão tratados se tiverem dificuldade de acesso aos cuidados de saúde, por eles existirem em pequena quantidade ou longe. Nessa conformidade, uns foram fechados e outros fundidos. Em 2011, sem qualquer estudo prévio ou necessidade sentida, foram fundidos o Centro Hospitalar de Coimbra e o Hospital da Universidade de Coimbra, no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.
Sem plano definido para o futuro, porque formado ad hoc e não porque houvesse alguma vantagem avaliada como tal, o caminho tomado na sua gestão foi a progressiva concentração de todos os serviços e valências no HUC, a pouco e pouco se eliminando “o outro“ Hospital Geral Central, o Hospital dos Covões. Este foi sendo esvaziado de recursos humanos e de especialidades, mais os respectivos doentes, tudo acumulado no HUC, deixando praticamente de poder funcionar como hospital e perturbando severamente o funcionamento do outro. Felizmente, a tecnologia lá instalada foi deixada ainda ficar, o que permitiu que na pandemia de covid-19 pudesse ser o hospital de referência em Coimbra para o seu tratamento, e por isso sem haver necessidade de tendas, hospitais de campanha ou camas em pavilhões desportivos, como aconteceu noutras cidades do nosso país.
Durante muitos anos os dois Hospitais Gerais Centrais de Coimbra conviveram entre si e com quatro clínicas privadas, sem sobressalto. Mas, mal foi iniciado o caminho de desactivação progressiva do Hospital dos Covões, surgiram mais duas clínicas, dois hospitais privados, e o crescimento de actividade destes tem acompanhado o decréscimo na do Hospital. Parece assistir-se a uma verdadeira transferência dum hospital público para dois hospitais privados, que só foi interrompida pela covid-19, tratada nos Covões e de que os privados se protegeram, praticamente encerrando portas, “para furtarem os doentes a esse contágio”.
Resumindo, ao fim de nove anos de fusão, para a qual não havia nenhuma indicação técnica, não foi encontrada qualquer vantagem, nem económica nem de ganhos em saúde, na sua execução. Pelo contrário, a acumulação de profissionais e de doentes num dos dois hospitais públicos, com progressivo encerramento do outro, teve mau resultado para ambos! Com horas de espera por atendimento na Urgência, salas de espera sem condições, com doentes em pé, ao frio ou ao sol, ou metidos em contentores nos parques de estacionamento sem lugar para estacionar, superlotação de doentes, taxas de infecção hospitalar que levaram já ao encerramento de Serviços, listas de espera imensas e cada vez maiores, para consultas, exames e tratamentos, até de doentes oncológicos, entregues para resolução e pagos aos hospitais privados que, na verdade, vivem disso, este é o quadro dum Hospital encravado na cidade no meio do trânsito e com filas enormes de acesso rodoviário. E que não foi sempre assim.
A actividade clínica privada é muito respeitável, e é útil que exista, mas num país que preza tanto uma das suas maiores conquistas, o Serviço Nacional de Saúde, não se pode substituir a esse serviço público! Todos os cidadãos têm direito à saúde no SNS, em tempo útil, e não obrigatoriamente postos esquecidamente em listas de espera enviadas para fora dos hospitais públicos a que se tiram meios para tratar os doentes! O acesso à medicina privada tem de ser voluntário e não obrigatório por cuidados de saúde públicos inexistentes ou de má qualidade, ou com tempos de espera inaceitáveis! A medicina privada tem de ser complementar da pública, não no sentido de se fecharem hospitais públicos para se abrirem privados, e não para uns tratarem umas doenças mais simples ou mais baratas e outros as mais complicadas e que fiquem mais caro, mas complementar no sentido de possibilidade de segunda opinião, ou de escolha de médicos diferentes, ou de outra qualidade de assistência. Complementar como deve ser entre hospitais públicos. Porque o monopólio é sempre gerador de maus resultados, mais tarde ou mais cedo. A pluralidade é o motor do progresso, é o que leva a poder-se seleccionar, estimular e aproveitar os melhores.
Quer dizer, um hospital público não pode ser substituído por privados. Até pela formação profissional, quer pré-graduada quer pós-graduada, que é feita no público. Eliminar um hospital público em Coimbra leva a menos lugares para formação especializada na cidade e, portanto, no país. E menos lugares para especialistas se fixarem em Coimbra. E menos lugares para aulas práticas e estágios de alunos de medicina, que entram na Faculdade de Medicina às quatro e cinco centenas por ano, e vão entrar ainda mais no ano que vem. O convénio já feito entre a direcção da Faculdade e um dos dois hospitais privados da cidade poderá substituir as aulas e estágios naquele hospital, onde se realizavam até agora?!...
Em conclusão, o problema que se criou em Coimbra na sua assistência médica hospitalar, com necessária repercussão na Região Centro, e que trouxe o povo às ruas, já por três vezes, tem a sua causa bem identificada: a fusão de hospitais feita há nove anos.  A fusão que, na realidade, fechou um dos dois Hospitais Gerais Centrais. A fusão que nunca se demonstrou ser necessária e que mostrou ser prejudicial. E que, por isso, tem de ser revertida. Por quem seja responsável pela política de saúde hospitalar neste país. E por quem seja responsável pela Saúde em Coimbra.
In Revista Saúde, Campeão das Provincias, Agosto, 2020

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

UMA FUSÃO HOSPITALAR POLÍTICA

A fusão do CHC com o HUC, criando o CHUC, foi de causa puramente política. Não houve qualquer estudo, ou evidência de necessidade, ou sequer de melhoria, de natureza técnica ou económica que a justificassem.
É agora cada vez mais evidente que essa fusão foi um fracasso, tecnicamente e economicamente, com o progressivo desmantelamento e encerramento dum dos Hospitais Gerais Centrais de Coimbra (Hospital dos Covões) e a consequente e progressiva pandemonização do outro (HUC), tolhendo-lhe o progresso, com crescente limitação de acesso e ineficácia da reposta, com cada vez maiores listas de espera, por acumulação nele de doentes e de patologias que até antes eram divididos pelos dois. Uma macrocefalia hospitalar que eliminou folgas para crescimento e desenvolvimento, ao mesmo tempo que a diversidade e a possibilidade de debate e segunda opinião a nível hospitalar. Com repercussões negativas na Saúde em Coimbra, na Região Centro e no País.
A solução para um erro praticado é corrigi-lo. Neste caso, desfazer a dita fusão, e devolver a autonomia ao Hospital dos Covões. Tal com é, aliás, solicitado na Petição pública à Assembleia da República “DEVOLVER A AUTONOMIA AO HOSPITAL DOS COVÕES – PELO DIREITO AO ACESSO A CUIDADOS DE SAÚDE DE QUALIDADE”, em avaliação na Comissão Parlamentar de Saúde para posterior votação em plenário do Parlamento.
É um problema político - do ponto de vista técnico é evidente o erro -, que tem de ter solução política. Pelos políticos. Antes de mais pelo ministério da saúde e o governo. As forças políticas locais já manifestaram clara e publicamente as suas opiniões neste assunto. Mas iremos saber, e ver de modo também claro, qual a posição dos vários partidos com assento parlamentar, de acordo com o seu voto na votação da referida Petição na Assembleia da República que vai ter lugar.
Texto da Petição:
"DEVOLVER A AUTONOMIA AO HOSPITAL DOS COVÕES.
PELO DIREITO AO ACESSO A CUIDADOS DE SAÚDE DE QUALIDADE.
Desde a criação do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) pela junção do Centro Hospitalar de Coimbra (onde se engloba o Hospital dos Covões) com o Hospital da Universidade de Coimbra (HUC), que se tem assistido não a uma fusão mas a uma destruição de um hospital central.
Sem qualquer razão assistencial, social, urbanística, científica, ou outra razão aceitável, o Hospital dos Covões tem sido progressivamente desprovido de recursos humanos e recursos materiais, despido de serviços médicos, reduzindo significativamente a capacidade de prestar cuidados de saúde com a qualidade que habituou a população. A centralização de cuidados e serviços médicos não foi solução, apenas trouxe dificuldade no acesso (listas de espera enormes), o “amontoar” de doentes num só hospital sem aparente capacidade de resposta, a redução da qualidade e um risco acrescido para os doentes e profissionais.
Se o Hospital dos Covões já tivesse sido encerrado, o colapso da saúde em Coimbra teria sido muito maior do que foi nesta era COVID. Sim, foi o Hospital dos Covões o epicentro do combate à pandemia em Coimbra. É preciso aprender com os erros de gestão em saúde do passado, para que o presente não se repita no futuro.
É imperativo reverter a "pseudo" fusão do Hospital dos Covões com o HUC, restabelecendo a autonomia e a capacidade que estava há anos instalada naquele hospital central e que resolvia todos os problemas de saúde da população que a ele recorria. Os trabalhadores do Hospital dos Covões estão tristes, desmotivados e revoltados pelo reiterado assédio moral a uma instituição com 47 anos de existência, que é acarinhada por profissionais e doentes. Insistir na continuação desta fusão é continuar a insistir na negligencia de gestão em saúde que se assiste em Coimbra há anos, e num crime contra o direito constitucional do acesso a cuidados de saúde.
É um dever do poder político assegurar que todos os portugueses tenham acesso a cuidados de saúde de qualidade e atempados num serviço público. Um Hospital dos Covões a funcionar em pleno é essencial para se cumprir esse dever, continuar a destruí-lo é um crime que lesa a pátria.
Por tudo isto e muito mais: Dizemos SIM ao Hospital dos Covões!"

terça-feira, 18 de agosto de 2020

AS LISTAS DAS CIRURGIAS

É bom que os doentes que necessitam de ser tratados o sejam, depois de se saber o que têm e qual o tratamento mais apropriado, seja cirúrgico ou seja médico. Como também é muito importante que os doentes tratados sejam seguidos e avaliados, para se ajuizar da eficácia do tratamento realizado e evitar atempadamente as recidivas ou os agravamentos da doença.
A grande bandeira do ministério da saúde tem sido tão só a das “cirurgias” realizadas, contabilizando-as a aumentar e as respectivas listas de espera a diminuir. A parte cirúrgica dos hospitais é a mais rentável em termos económicos, e é também a que mais se presta a notícias mais ou menos bombásticas nos jornais. É evidente que todos percebem que a saúde dum país é muito mais que isso, basta lembrar os doentes com acidentes vasculares cerebrais, insuficiência cardíaca, ou renal, ou respiratória, terminal, artrite reumatóide, Alzheimer, cancro inoperável, SIDA, doenças do neurónio motor,  pés diabéticos, isquémias crónicas dos membros inferiores, etc., etc., tantas situações muito menos apetecíveis para os hospitais. Mas enfim, prestemos por um momento atenção aos números apresentados pelo ministério sobre as “cirurgias”, e tomemo-los até por correctos.
Têm aumentado, mas sobretudo à custa de intervenções realizadas fora do hospital onde os doentes foram observados e a indicação cirúrgica posta. O que significa antes de mais uma falência desses hospitais. E muitos doentes têm sido enviados para fora do país (por exemplo para Espanha e para Cuba), o que significa uma falência do nosso sistema de saúde, aproveitando-se do bom funcionamento do dos outros. Diferente seria se houvesse intercâmbio de doentes, mas isso não acontece. E não é por falta de preparação ou conhecimentos dos nossos especialistas, por enquanto.
Os doentes deveriam ser observados, estudados, operados e seguidos pelo mesmo médico, ou pela mesma equipa, sendo eles próprios a fazer essa escolha, até como teste de qualidade. Não é isso que se passa, podendo sim escolher entre hospitais  perfeitamente desconhecidos, a centenas de quilómetros de casa, do “seu” hospital e dos “seus” médicos, para onde têm de se deslocar por conta própria, várias vezes. Para ocasionalmente lhes ser dito que não têm indicação cirúrgica… Ou terão ou não, quem vai saber isso ao certo?... Que voltem ao hospital de origem para tirar isso a limpo!  E a quem vão recorrer se lhes for feita uma operação errada, houver complicações, maus resultados? A verdade é que 65% dos vales-cirurgia emitidos não foram utilizados, por estas ou outras razões. Poder-se-á falar de êxito deste programa?!
Quando a intervenção tem lugar no próprio hospital, é em geral fora de horas e a pagamento extra. As estatísticas propaladas não falam de custos, o que é de estranhar em quem se apressa constantemente a pôr um preço na saúde de cada um de nós. A verdade é que, nalguns hospitais, muitas dessas operações para esvaziar listas de espera, sobretudo em cirurgia do ambulatório sem instalações dedicadas, estão a ocupar salas de operações para cirurgia major. Por um lado tratam-se pequenos casos, por outro acumulam-se doentes graves.
Finalmente, uma outra maneira utilizada para impedir o aumento ou a manutenção das listas de espera para cirurgia é não aceitar doentes novos na consulta. Ou fechar consultas, em especial de patologias “mais caras”, tornando assim mais difícil o acesso desses doentes a quem lhes ponha uma indicação cirúrgica e os coloque numa lista de espera para cirurgia. Este aspecto prende-se com a gestão hospitalar liberalizada e entregue a quem descarta a função de cada hospital em termos da saúde nacional e faz todo o tipo de “engenharias” para que o “seu” hospital dê menos prejuízo que o do vizinho. E a saúde nacional não precisa de engenheiros, precisa é de médicos que tratem os doentes. Todos os doentes do nosso país. E os de Espanha ou de Cuba, já agora, se cá vierem para ser tratados.
In Farpas pela nossa Saúde, 2008

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

O SILÊNCIO DOS SURDOS

Diz o nosso povo que “o pior cego é o que não quer ver”. De igual modo “o pior surdo é o que não quer ouvir”, aquele que se força a um silêncio circundante que depois interpreta como entende, em geral de aceitação tácita por todos os que o rodeiam de tudo o que faz e diz, de modo a viver tranquilo, na convicção de que vai no caminho certo para ser depois recordado da melhor maneira.
Tive em Inglaterra um Professor com quem aprendi muito, eu e todos os que tiveram a felicidade de com ele trabalhar, vindos dos quatro cantos do mundo. Britânico típico, contido e de poucas falas (à excepção de dias de festa, em que se abria mais), impunha respeito naturalmente, pelo trabalho científico produzido mas sobretudo porque era uma referência para o Serviço em termos humanos e profissionais, a quem se recorria nos momentos de aflição, que ele tomava invariavelmente como seus deixando as eventuais repreensões internas para depois de passada a crise. Pois era clássico esse Professor  dizer aos seus colaboradores: “Não me deixem fazer asneiras, avisem-me”. O que isto não significa de inteligência, de espírito de abertura, de vontade constante de aprender e evoluir, e também de ensinar! E que prova de autoconfiança nas suas capacidades e conhecimentos! A este respeito ocorre-me também, gratamente, um outro Professor que tive, quando aluno da minha Faculdade, que publicou um livro sobre “O erro de diagnóstico”, apresentando erros seus e discutindo-os.
A Saúde no nosso país sofreu uma reviravolta nos últimos anos, baseada fundamentalmente no facto de a gestão clínica ter cedido a primazia, por mecanismo legislativo, à gestão administrativa pura e dura. Muito se tem escrito sobre isso, mas muito já se começa claramente a perceber do que vai ser o resultado final de tal mudança. Os administradores hospitalares todo-poderosos tornaram-se a eles próprios o centro dos hospitais, desequilibrando por isso o barco da saúde - esperemos que ainda se vá a tempo de evitar o naufrágio que se anuncia.
Procurou-se criar uma forma de gestão empresarial aplicada aos nossos hospitais públicos, mas não o conseguiram fazer sem eles serem descaracterizados, modificados, mudados na forma e ao mesmo tempo deformados no seu conteúdo. Tudo para que coubessem no esquema de gestão inventado. É como comprar um sistema informático para uma empresa mas para ser capaz de o aplicar ter de mudar toda a empresa. Em vez de ter a capacidade de construir um programa (ou modificar um já existente) de modo a registar e coordenar com eficiência o trabalho normalmente produzido.  
Cada vez mais vozes se vão erguendo contra o que está, mas sem resultado, sem qualquer inflexão no programa talhado pelo governo nesta matéria, para além de pequenas mudanças que a política do dia a dia recomenda, dentro daquele princípio político de que “é preciso mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma”. E a verdade é que os problemas fundamentais criados pela nova forma de gestão hospitalar se mantêm inalterados, pesem embora as vozes discordantes.
Querer hospitais geridos como empresas, mas para alguns nomear “gestores” com um marcado e por todos reconhecido espírito de funcionário público, no significado mais monolítico, limitado e burocrático do termo, não poderia ter bom resultado. Retalhou-se o país em dezenas de empresas públicas de saúde geridas ao bel-prazer e livre arbítrio de quem foi posto a dirigi-las, com resultados no terreno muito diversos. E o Estado ficou refém dessas pessoas: a única intervenção que pode ter na gestão é a sua substituição por maus resultados, financeiros, clínicos ou ambos - sempre tardia, portanto.
A nova ordem hospitalar dizia-se pretender agilizar a gestão dos hospitais. E, no entanto, levou indirectamente à realidade de nalguns reinar a burocracia mais perra e desmotivante, enquanto governamentalmente se entrou pela obrigatoriedade de horários médicos rígidos, totalmente desadequados à maior parte da actividade clínica e em grande medida atrofiando-a.
Qualquer empresa procura contratar os melhores, oferecer-lhes condições de trabalho (às vezes bem mais importantes e sedutoras para os mais aptos e ambiciosos do ponto de vista intelectual, e bem mais baratas, do que qualquer engodo financeiro), e entusiasmá-los num projecto clínico de que façam parte e pelo qual se batam. Um projecto ganhador, lógico, bem estruturado, e não uma “coisa” puramente administrativa, sem base clínica séria e por isso sem futuro e condenada ao fracasso em pouco tempo, tratando-se duma empresa que é um hospital.
Encher os hospitais de administradores e querer fazer acreditar que é da função deles que dependem os bons resultados da instituição é um erro crasso. Pensar que os médicos que mais conversam com os administradores e lhes dizem que sim a tudo é que são os tais com capacidade para gerir os serviços, é outro. E maior ainda quando se pensa que um bom médico, com trabalho científico produzido, procurado pelos doentes e respeitado pelos colegas, não é por isso capaz duma função tão complexa e elevada como “gerir”.
Foi a desierarquização introduzida deste modo nos hospitais que os levou a uma situação que, a não se reverter rapidamente, se tornará insustentável. Por enquanto vai valendo um resto da organização que existia pelas carreiras médicas. Trocou-se algo com princípio, meio e fim, e que por isso durou, com êxito, durante dezenas de anos, por uma coisa que não tem estrutura que lhe permita sobreviver muito mais tempo.
Foi animador ver recentemente o político motor de tudo isto temer que o “serviço público dos hospitais EPE” possa estar em perigo. Tem razão, tardiamente. Teria sido bom vê-lo reconhecer também que tinha igualmente razão quando, antes de ser ministro, considerava as taxas moderadoras no internamento hospitalar, implementadas depois por ele, inconstitucionais e aberrantes.    
O problema maior para os ideólogos da nova ordem na saúde é que antes as coisas funcionavam sem sobressaltos. E agora não. E cada vez mais encontramos doentes portugueses, a viver em Portugal, que tiveram de ir a Espanha, e a Cuba… E hospitais que limitam as patologias a tratar adentro das suas portas porque algumas saem caro, e preferem enviar os doentes para outros, perto ou longe - para outras empresas, elas que gastem o dinheiro. O tratar doentes é sopesado do ponto de vista económico-financeiro, variando entre quem tem vistas largas de supermercado ou visão de merceeiro de bairro. O aspecto clínico é apenas secundário, adaptado ou distorcido perante os contratos estabelecidos na esfera administrativa pura e simples. Insiste-se, por exemplo, em realizar centenas de pequenas intervenções, no projecto da cirurgia do ambulatório, mas ocupando para tanto as salas de operações onde cancros e outra grande patologia deveriam ser operados. E a verdade é que o ministério da saúde ficou refém da lei que elaborou: não pode intervir nestas situações, mesmo que oiça falar delas e saiba que elas existem.
Mas de tudo isto o aspecto mais preocupante, para já mas principalmente a médio e a longo prazo, é o da formação médica. Também aqui se está a viver dos que se formaram e ganharam experiência na ordem antiga, isto é, no SNS antes da reviravolta e do fim real das carreiras médicas. Estas estão longe de ser um problema apenas sindical de contratação colectiva de trabalho ou de patamares de progressão salarial. Muito para além disso elas foram durante anos o garante dum esforço constante de aperfeiçoamento e um estímulo eficaz para a produção de trabalho científico, de investigação clínica, de revisão de resultados, e ao mesmo tempo um sistema de avaliação com critérios definidos e concursos públicos sujeitos a discussão e escrutínio administrativo, científico e legal. Tudo acabou, a desierarquização científica e técnica obtida pela nova lei de gestão hospitalar vai paulatinamente conduzindo à anarquia e ao salve-se quem puder.
Ouve-se isto a cada passo. Não querer ouvir e imaginar um silêncio circundante atento e venerador não adianta. E não tem futuro.
Para além disso, criaram-se nos hospitais duas situações perfeitamente antagónicas mas ambas profundamente prejudiciais para a prática médica. Dum lado, tarefeiros médicos contratados à hora, sem possibilidade de integração com os colegas com quem trabalham episodicamente em variadas instituições. Do outro, médicos forçados a serem funcionários públicos de horário rígido como qualquer funcionário manga-de-alpaca, com redução da sua actividade clínica àquele número de horas. Mesmo que se diga agora que não é bem assim, é: senão para que serviria o controlo biométrico pelo dedo?! Uma originalidade portuguesa, em abono da verdade, que não existe noutro país, nem com dedo nem doutra forma qualquer - por que será?!
Por tudo isto já se esperava uma quebra na qualidade da medicina, com repercussões na saúde. Que vão aumentar exponencialmente, com a formação contínua pós-graduada posta em causa pelo desaparecimento das carreiras e o afastamento dos mais diferenciados. Foi sem surpresa que se viu a posição de Portugal na Europa no campo da saúde baixar do 6º lugar (quando éramos 12º a nível mundial) para 19º no ano passado e agora para 26º. A descida foi rápida, mas surpreendido só terá ficado quem não ouvia o que se dizia. 
A qualidade da medicina foi sacrificada à vertigem administradora das novas administrações. Tudo tem que girar à volta dos administradores - centro do sistema hospitalar – e daí também não veio mais-valia económica, já se esperava e foi o que aconteceu, só quem não queria ouvir se espantou: o défice financeiro da saúde não diminuiu, antes aumentou, e muito. Pudera, a saúde mais barata é a que se consegue com a boa medicina, e a função dos administradores hospitalares deveria tão-somente ser ajudar a criar as condições necessárias para que ela possa surgir. Praticada e gerida pelos médicos, clinicamente.
In Farpas pela nossa Saúde, 2008